O desafio "trava-língua"


Aliteração


O rato roeu a roda da carruagem do rei de Roma.
Três tigres trituram três pratos de trigo
Tente dizer essas frases várias vezes em seguida. Trata-se de uma brincadeira que se faz muito por aí, um tipo de desafio "quebra-língua". Na verdade, o que temos nessas frases é a repetição de fonemas (sons) consonantais, ou o uso de fonemas parecidos:
Três tigres trituram três pratos de trigo
Existe aí a repetição do fonema /t/, do fonema /r/ e do encontro consonantal /tr/. No outro exemplo, temos a repetição do fonema /r/:
O rato roeu a roda da carruagem do rei de Roma.
Esse recurso chama-se aliteração e é bastante usado na poesia. Vamos a um exemplo, um trecho da canção "Alvorada Voraz", de Paulo Ricardo:
Virada do século
alvorada voraz
nos aguardam exércitos que nos
guardam da paz (que paz?).
A face do mal, um grito de horror
um fato normal, um êxtase de dor
e medo de tudo, medo do nada.
Medo da vida, assim engatilhada
fardas e força forjam
as armações...
Nessa letra temos dois trechos com aliterações: em "alvorada voraz" há a repetição do fonema /v/ e do fonema /r/. E mais adiante, em "fardas e força forjam as armações", temos a repetição do fonema /f/. Tente fazer uma aliteração e perceba como é difícil para o poeta fazer uma combinação que tenha bom gosto e faça sentido.


A repetição de palavras


Anáfora


Nunca repita palavras no seu texto.
Quem, durante sua vida estudantil, nunca ouviu seu professor ou professora fazer essa recomendação? Por causa dela, o aluno cria uma camisa-de-força ao escrever sua redação, supondo que seu trabalho ficará péssimo se utilizar mais de uma vez a mesma expressão. Mas será que a repetição de palavras é um recurso sempre condenável?
Preste atenção na letra da canção "Flores em você", gravada pelo grupo Ira!:
De todo o meu passado
boas e más recordações.
Quero viver meu presente
e lembrar tudo depois.
Nessa vida passageira,
eu sou eu, você é você.
Isso é o que mais me agrada.
isso é o que me faz dizer
que vejo flores em você.
A repetição, nesse caso, é um recurso usado de forma leve: a estrutura "isso é o que..." foi repetida apenas uma vez, com a intenção de dar ênfase àquele trecho da letra. Há casos em que a repetição é feita de forma bem mais intensa, como na canção "À primeira vista", gravada por Chico César:
Quando não tinha nada, eu quis.
Quando tudo era ausência, esperei.
Quando tive frio, tremi.
Quando tive coragem, liguei.
Quando chegou carta, abri.
Quando ouvi Prince, dancei.
Quando olho brilhou, entendi.
Quando criei asas, voei.
Quando me chamou, eu vim.
Quando dei por mim, tava aqui.
Quando lhe achei, me perdi.
Quando vi você, me apaixonei.
A repetição da mesma palavra no início de dois ou mais versos chama-se anáfora. Esse recurso, na linguagem poética, é perfeitamente possível. Na linguagem formal, na dissertação, a repetição abusiva pode não levar ao mesmo resultado. Por isso evite esse recurso no seu texto formal ou utilize-o com muito critério e consciência.


Metáfora desgastada


Catacrese


Você já parou para pensar que a palavra "embarcar" deriva de barco ou barca? "Embarcar", ao pé da letra, significa entrar no barco ou na barca, e não no trem, no carro, no ônibus ou no avião. No entanto todo mundo embarca no trem, no carro, em todos os meios de transporte. Esse é um fenômeno lingüístico chamado catacrese, um tipo de metáfora desgastada.
A metáfora se faz por semelhança. No caso, a semelhança entre um barco e um trem está em que ambos são meios de transporte. Como não existe um verbo específico para cada meio de transporte, então utilizamos - por metáfora - o verbo "embarcar" para todos eles. Com o tempo, a metáfora se desgasta, fenômeno a que damos o nome de catacrese.
Vamos a um exemplo interessante de catacrese na música "Azul", de Djavan:
Eu não sei se vem de Deus
do céu ficar azul
ou virá dos olhos teus
essa cor que azuleja o dia?
Se acaso anoitecer
do céu perder o azul...
Será que "azul" e "azulejo" têm algo em comum? Os bons dicionários alegam que sim. Dizem que o azulejo, quando surgiu, era branco ou azul, e por isso emprestou da palavra "azul" a origem de seu nome. Por isso "azulejo" é uma catacrese: por semelhança lógica com a cor azul, por metáfora que se desgastou com o uso.
Outros exemplos de catacrese:
bico da pena
dente do alho
dente do pente
braço da cadeira


Elipse


Talvez você tenha ouvido essa palavra numa aula de matemática ou numa aula de português. O termo pertence aos dois territórios. Acompanhe a letra de "Só se for a dois", de Cazuza:
Aos filhos de Gandhi, morrendo de fome
aos filhos de Cristo (irmãos), cada vez mais ricos
o beijo do soldado em sua namorada
seja para onde for.
No trecho destacado, as vírgulas têm o papel de indicar algo mais além do que está escrito. A frase "Aos filhos de Cristo, cada vez mais ricos" quer dizer, na verdade, "aos filhos de Cristo que estão cada vez mais ricos". Há um verbo oculto aí, um verbo que está subentendido. Isso é elipse: omissão de termo que se deduz facilmente pelo contexto, embora não venha expresso, não esteja explícito.

Redondilhas
Observe a letra de "Paratodos", de Chico Buarque:
...Foi Antonio Brasileiro
quem soprou esta toada
que cobri de redondilhas
pra seguir minha jornada
e com a vista enevoada
ver o inferno e maravilhas
nessas tortuosas trilhas
a viola me redime
creia ilustre cavalheiro
contra fel, moléstia, crime
use Dorival Caymmi
vá de Jackson do Pandeiro...
Chico Buarque usou a palavra "redondilhas", que são versos com um determinado número de sílabas. Mas o compositor não apenas usou essa palavra como pôs em prática o seu conceito. O professor de literatura Ulisses Infante nos ajuda a definir o significado de "redondilha": "Redondilha é o nome que se dá ao verso de cinco sílabas poéticas ou de sete sílabas poéticas. O verso de cinco sílabas poéticas é a redondilha menor". Esse recurso usado por Chico Buarque remonta à Idade Média.
O compositor recorreu a um artifício legítimo: usou o artigo em "O meu pai", mas não o usou em "Meu avô". Dessa forma, os dois versos ficaram com sete sílabas poéticas (só se conta até a última sílaba tônica)".
O meu pai e-ra pau-lis-ta
Meu a-vô per-nam-bu-ca-no


Vamos a mais um exemplo, a canção portuguesa "Cantiga Partindo-se", de João Raiz de Castel’Branco e Vitorino:
Senhora, partem tão tristes
meus olhos por nós, meu bem
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém
tão tristes, tão saudosos
tão doentes da partida
tão cansados, tão chorosos
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida
Partem tão tristes os tristes
tão fora de esperar bem
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém
Essa canção faz parte do disco "Leitaria Garrett", do compositor, cantor e violonista português Vitorino. A letra, do poeta João Raiz de Castel’Branco, data do século XVI, conforme o professor Ulisses Infante: "Hoje, nos referimos a este poeta simplesmente como Castelo Branco. Seu trabalho faz parte do livro O Cancioneiro Geral, publicado em 1516. Podemos notar que o poeta também usou a redondilha de sete sílabas".
Se-nho-ra, par-tem tão tris-tes
Meus o-lhos por nós, meu bem
Guarde o significado de "redondilha":
redondilha maior (ou simplesmente redondilha) = verso de 7 sílabas poéticas
redondilha menor = verso de cinco sílabas poéticas

Inversão da ordem das palavras


Hipérbato
Será que você conhece esta frase: "Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante"? É claro que sim. Trata-se do começo do Hino Nacional Brasileiro. São treze palavras dispostas em ordem que não é a ordem natural em língua portuguesa. Temos aqui a figura do hipérbato. Na ordem direta, a frase ficaria assim:
As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heróico.
Esse "as" de "as margens plácidas" não recebe acento indicador de crase. Está na letra oficial do Hino Nacional.
Veja um caso mais simples de hipérbato no texto abaixo:
(Música "Toada", do grupo Boca Livre)
Vem, morena
ouvir comigo essa cantiga
sair por essa vida aventureira
tanta toada eu trago na viola
pra ver você mais feliz.
A letra diz "...tanta toada eu trago na viola...". Quem traz traz alguma coisa. No caso, "tanta toada", que é o complemento do verbo. A expressão "tanta toada" aparece, no entanto, no início. Mais natural seria se ela viesse depois de "trago":
Eu trago tanta toada na viola...
Em geral, faz-se essa inversão ou para colocar em evidência o termo que se desloca, ou para que o poeta tenha algum recurso a mais para rimar. A isso se dá o nome de hipérbato, que é a "inversão da ordem natural das palavras".


Expressões com duplo sentido


Ironia
Você já parou para pensar no significado da expressão "ilustre desconhecido"? Nós a utilizamos quando nos referimos a um cidadão comum, uma pessoa que não é famosa.
Tempos atrás, quando o então candidato à presidência Fernando Henrique Cardoso teve seu nome incluído numa pesquisa popular, descobriu-se que pouquíssimas entre as pessoas ouvidas sabiam de quem se tratava. E o candidato já era ministro de Estado. Na época, o jornal Folha de S. Paulo fez um texto interessante, referindo-se a Fernando Henrique como um ilustre desconhecido, mas não no sentido comum da expressão. O texto queria dizer que de fato o candidato era uma pessoa ilustre, por toda a sua carreira acadêmica e política, mas ainda assim uma pessoa desconhecida do grande público. Nesse caso a palavra "ilustre" foi usada no seu sentido efetivo, registrado normalmente pelos dicionários, mas compondo uma expressão que tem duplo sentido.
Muitas palavras podem ser empregadas em mais de um sentido, como na canção de Rita Lee, "Obrigado Não":
Quanto mais proibido
Mais faz sentido a contravenção.
Legalize o que não é crime
Recrimine a falta de educação.
Gravidez versus aborto -
Quem quer nascer no mar morto?
Quem quer morrer
Antes da concepção?
Obrigado não, obrigado não
Preste atenção na letra e note que no último verso a palavra "obrigado" tem duplo sentido. Ao mesmo tempo em que ela quer dizer "Não, obrigado, isso eu não quero", também quer dizer que não é agradável fazer algo por obrigação; bom mesmo é fazer com consciência.
Dessa forma, a palavra "obrigado" é usada de uma forma que ultrapassa o sentido que normalmente tem no uso comum da língua portuguesa. A letra da música, muito inteligente, comprova que o seu título faz sentido, ou melhor, faz duplo sentido.


A palavra que imita o som


Onomatopéia
Há um tipo de avião pequeno que se chama teco-teco. "Teco-teco" é uma palavra surgida a partir de um processo conhecido como onomatopéia.
Onomatopéia é a tentativa de reprodução de sons por meio de palavras. A palavra tenta imitar os sons.
O avião chama-se teco-teco porque o funcionamento do seu motor produz um som parecido com teco-teco. O mesmo acontece com o instrumento reco-reco.
A onomatopéia é muito comum na linguagem infantil: ai, ui, tóim, bam, bum etc... Todas essas e muito mais são expressões onomatopéicas ou onomatopaicas.
Encontro de idéias opostas
Paradoxo
Imagine esta situação: enfrentam-se Palmeiras e Corinthians, e Marcelinho do Corinthians marca um gol; um palmeirense se levanta e vibra.
Se você tivesse de usar um adjetivo para definir a atitude do palmeirense que vibrou com o gol de Marcelinho contra o Palmeiras, que adjetivo você usaria?
Veja um caso que mereceria adjetivo semelhante numa das chamadas "Canções que você fez pra mim", de Roberto e Erasmo.
É tão difícil olhar o mundo
e ver o que ainda existe
pois sem você
meu mundo é diferente
minha alegria é triste.

O último verso diz: "...minha alegria é triste". A alegria e a tristeza se opõem. Como é possível que a alegria tenha como característica básica a tristeza? Trata-se de um paradoxo, encontro de idéias que se opõem. É a partir dessa palavra que se forma o adjetivo que poderia qualificar a atitude do torcedor: paradoxal. Se a minha alegria é triste, ela tem uma qualidade que é antagônica a sua própria natureza.
Assim, o entusiasmo do palmeirense com o gol do Marcelinho seria, sem dúvida, um entusiasmo paradoxal.

Esse fenômeno existe em nossa língua assim como em várias línguas do mundo.


Expressões redundantes


Pleonasmo


Você já ouviu falar em pleonasmo? Trata-se da repetição de uma idéia que já está contida em termo anterior. Veja um exemplo:
Eu sonhei um sonho.
Se eu sonhei, obviamente foi um sonho. Algumas vezes, a palavra "pleonasmo" pode ser usada no dia-a-dia com o sentido de ironia. Alguém diz, por exemplo: "Aquele é um político falador". Outra pessoa pode retrucar: "Político falador é um pleonasmo". Com certeza, o comentário deve-se ao fato de que, normalmente, o político é mesmo um falador, fala, fala, fala....
Existem pelo menos dois tipos de pleonasmo: aquele que não acrescenta nada, como "entrar para dentro", e aquele que tem certa expressividade, reativando o sentido original.
Vejamos um trecho da canção "Vou deixar que você se vá", gravada pelo grupo Nenhum de Nós:
... Procure o seu caminho
Eu aprendi a andar sozinho
Isto foi há muito tempo atrás
Mas ainda sei como se faz
Minhas mãos estão cansadas
Não tenho mais onde me agarrar.
Expressões como "há muito tempo atrás" estão consagradas na língua do dia-a-dia e até em textos literários. Ao pé da letra, é um pleonasmo. Se alguém esteve em algum lugar há 10 anos, necessariamente foi no passado. Por isso a palavra "atrás", nesse caso, é redundante, é um pleonasmo. Trata-se, porém, de um pleonasmo tão usado que alguns autores supõem seja hora de aceitá-lo. No português rigoroso, contudo, é melhor não usá-lo.
Vejamos outro caso, agora na letra da canção "Tanta saudade", gravada por Djavan:
... Mas voltou a saudade
É, pra ficar
Ai, eu encarei de frente
Ai, eu encarei de frente, menina
Se eu ficar na saudade
É, deixa estar
Saudade engole a gente
Saudade engole a gente, menina...
A expressão "encarei de frente" também é consagrada no uso popular. Mas "encarar" já significa "olhar de frente". Assim, "encarei de frente" é redundância, é pleonasmo. Esse recurso faz sentido em determinados contextos, em textos literários em que se quer enfatizar uma idéia.
Rigorosamente, no entanto, são construções que trazem informações desnecessárias, redundantes. Algumas vezes utilizamos pleonasmos sem perceber. Por exemplo:
Ele tem uma bela caligrafia.
"Cali", um radical grego, quer dizer "belo", "bonito". Assim, "caligrafia" significa "grafia bonita", o que torna a expressão "caligrafia bonita" um pleonasmo. Como, no entanto, praticamente se perdeu a noção de que caligrafia já tem a palavra "belo", escrever "bela caligrafia" não constitui um deslize e é aceito pelo padrão culto.
Palavras com múltiplos significados
O que é polissemia?
poli = vários.
semia = significado
polissemia: vários significados para uma mesma palavra.
Um dos campeões da polissemia é o verbo "ter". Veja os significados que ele adquire no texto abaixo.
Vamos, carioca
sai do teu sono devagar
o dia já vem vindo
aí o sol já vai raiar
São Jorge, teu padrinho
te dê cana pra tomar
Xangô, teu pai
te dê muitas mulheres para amar
ê, vida tão boa
só coisa boa pra pensar
sem ter que pagar nada
céu e terra, sol e mar
e ainda ter mulher
e ter o samba pra cantar
o samba que é o balanço
da mulher que sabe amar.
Essa canção, "Samba do carioca", de Carlos Lira e Vinícius de Moraes, faz parte de um belo espetáculo chamado "Pobre menina rica". Observe que, na primeira ocorrência (" sem ter de pagar nada" ), o verbo "ter" transmite a idéia de obrigação, como vemos nos seguintes exemplos:
Tenho de levantar cedo amanhã.
Temos de escovar os dentes quatro vezes por dia.
Na segunda vez que surge na letra ("e ainda ter mulher e ter o samba..."), o verbo "ter" adquire outro sentido. Agora, transmite-se a idéia de posse.Esses são apenas alguns significados dos tantos que o verbo "ter" apresenta.


Uma concordância ideológica


Silepse


Será que os erros de concordância sempre ocorrem por desconhecimento das regras ou será que é possível errar intencionalmente?
Às vezes o erro é intencional e está articulado com o contexto, com a intenção de quem escreve. Um exemplo inequívoco disso é a letra "Inútil", do grupo "Ultraje a Rigor".
A gente não sabemos escolher presidente
A gente não sabemos tomar conta da gente
A gente não sabemos nem escovar os dentes
Tem gringo pensando que nós é indigente


Inútil, a gente somos inútil
Inútil, a gente somos inútil
Em muitos lugares do Brasil pratica-se essa concordância com muita naturalidade. De acordo com a língua oficial, no entanto, trata-se de uma construção equivocada. "A gente não somos inútil", "a gente é inútil". Contudo, para o clima da letra, para o contexto que foi criado, é até necessário errar a concordância intencionalmente para que a sátira fique mais evidente. A forma gramatical busca aqui se adequar à mensagem. Por se tratar de texto poético, a quebra da norma se justifica porque visa a um fim determinado. Há consciência da parte do letrista de que se trata de um erro, cometido apenas para enfatizar a inutilidade desse "a gente" (que afirma sua incapacidade para até mesmo concordar o verbo com o sujeito).
Na linguagem formal, não há dúvida de que a construção recomendada é "Somos inúteis", "A gente é inútil", possuindo esta última construção um matiz coloquial pelo uso de "a gente" no lugar de "nós".