Gênero


"champanhe" "grama" "moral" "libido"


Em Belém do Pará, não é difícil ouvir alguém dizer: "Levei uma tapa".
Um rápida consulta ao dicionário nos esclareceria que "uma tapa", "um tapa", "o tapa" e "a tapa" são formas corretíssimas. Trata-se de uma palavra que pode ser tanto do gênero masculino como do gênero feminino.
Caso semelhante ao de "tapa" é o de "sabiá". Na canção "Sabiá", de Tom Jobim e Chico Buarque, temos:
Vou voltar.
Sei que ainda vou voltar
para o meu lugar.
Foi lá e é ainda lá
que eu hei de ouvir cantar
uma sabiá, o meu sabiá.


Chico Buarque usou as duas formas. Ambas estão corretas, como nos mostram os dicionários.
Algumas palavras, porém, não admitem duplo gênero.


É o caso de "dó". Ouve-se falar "Você não imagina a dó que eu senti", quando a construção correta seria "Você não imagina o dó que eu senti". "Dó" é do gênero masculino. "O dó", portanto, é a construção adequada, ainda que seja muito pouco usada no dia-a-dia.


Em muitos lugares ouve-se "a champanhe", quando o correto seria "o champanhe" e "o champanha". A palavra pode ser escrita com "e" ou com "a" no fim, mas deve ser acompanhada sempre de artigo masculino, e nunca de artigo feminino.
Outro problema são aquelas palavras cujo sentido muda quando o gênero é alterado. É o caso de "grama". Não se deve confundir "o grama" com "a grama", "o moral" com "a moral". "O grama" é a unidade de massa.

Compram-se duzentos gramas de queijo.

Já "A grama" é o vegetal, a designação comumente dada a várias espécies de gramíneas.
Não pise naquela grama!

Por sua vez, "O moral" é o estado de espírito.
O time está com o moral elevado.


"A moral" é o código de princípios de uma sociedade.
A moral dos judeus é diferente da dos cristãos.


Temos outro caso interessante no trecho a seguir da canção "Seduzir", gravada por Djavan:


Amar é perder o tom nas comas da ilusão.
revelar todo o sentido
Vou andar, vou voar para ver o mundo.
Nem que eu bebesse o mar
encheria o que eu tenho de fundo...
Nesse trecho, vimos que Djavan usou a palavra "comas". De acordo com os dicionários, a palavra "coma" tem vários significados. Na letra de "Seduzir" ela foi usada com o significado de "estado de inconsciência", "estado de coma". Trata-se de uma palavra que pode ser indiferentemente masculina e feminina: "o coma" ou "a coma".

A língua falada, do dia-a-dia, não assimila com facilidade o gênero culto de algumas palavras.
Vejamos outro caso, a palavra "libido", usada na canção "Alívio Imediato", gravada pelos Engenheiros do Hawaii:


...A Líbia bombardeada, a libido e o vírus
o poder, o pudor, os lábios e o batom...


Agora observemos a mesma palavra ser utilizada na canção "Garota Nacional", gravada pelo Skank:


... Porque ela derrama um banquete, um palacete
um anjo de vestido, uma libido do cacete...


A grafia está correta na letra das duas músicas: "a libido". Não existe a forma "o libido".
Quando houver dúvida quanto ao gênero de palavras, recorra sempre ao dicionário.

masculino de "primeira-dama"

Quando um homem é eleito prefeito, sua mulher se torna a primeira-dama da cidade. A mulher do governador torna-se a primeira-dama do Estado, e a do presidente, primeira-dama da nação. Mas como deveríamos chamar o marido de uma mulher que tenha sido eleita para um desses cargos?

Para responder a essa pergunta, precisamos descobrir o masculino de "primeira-dama". Basta pegarmos o masculino de "dama", que é "cavalheiro", e formar o substantivo composto "primeiro-cavalheiro". Essa construção pode parecer estranha, mas ela é correta:


primeira-dama
primeiro-cavalheiro


É importante não confundir "cavalheiro" com "cavaleiro", que é a pessoa que monta a cavalo.

"o pipa" ou "a pipa"?
Você já ouviu alguém dizendo "o pipa"? A palavra "pipa" é substantivo feminino ou masculino?
Os dicionários dizem que "pipa" é palavra feminina: a pipa.

Quanto a "o pipa", é provável que tenha ocorrido aí aquilo que se chama de contaminação, de cruzamento. Como "pipa", "quadrado" e "papagaio", por exemplo, são sinônimos, e "quadrado" e "papagaio" são palavras masculinas, pode ter se dado um cruzamento, uma troca de gênero entre os substantivos.
De qualquer maneira, é bom lembrar que os dicionários não abonam isso e registram "pipa" como palavra feminina: a pipa.

É bom que se saiba também que a palavra tem vários sinônimos: "arraia", "cafifa", "pandorga", além de "quadrado", já mencionado. Como lembra o Aurélio, no Nordeste ainda haveria os substantivos "balde" e "tapioca" utilizados com esse sentido.

Flexão de grau
diminutivo
Num comercial de TV há um diálogo entre um médico e uma mulher em que esta diz a certa altura: "É azia, doutor. Mas eu já estou providenciando uma colherzinha de Gastran".


De fato, o diminutivo de "colher" é "colherzinha".


No dia-a-dia, porém, é comum ouvirmos "uma colherinha", que parece até mais afetivo. E "bar"? Você diria "barinho" ou "barzinho" ? É mais provável que diga "barzinho".
Quando o substantivo termina em "r", a tendência é que se faça o diminutivo com o acréscimo de "-zinho" ou "-zinha". "Colherinha", em linguagem familiar, é perfeitamente aceitável. Mas, conforme a gramática normativa, o correto seria "colherzinha".


Vamos a um exemplo tirado da canção "Coisa bonita", gravada por Roberto Carlos:


Amo você assim e não sei por que tanto sacrifício
ginástica, dieta não sei pra que tanto exercício
olha, eu não me incomodo
um quilinho a mais não é antiestético
Pode até me beijar, pode me lamber
que eu sou dietético...


Essa música de Roberto e Erasmo Carlos foi feita para as pessoas que são, digamos, gordinhas. Quando se diz "gordinho" ou "gordinha", usa-se o diminutivo, no caso diminutivo de um adjetivo. Esse diminutivo tem um valor afetivo: "gordinho" é um termo mais delicado que "gordão", que é o aumentativo. Nesse caso, o diminutivo não transmite necessariamente a idéia de tamanho, e sim a idéia de algo mais delicado, suave, afetivo, como fizeram os compositores com a palavra "quilinho". Na verdade, não pode haver um quilo menor do que outro quilo. Ao pé da letra, "quilinho" é um absurdo. Na letra da música, no entanto, a palavra adquire um valor afetivo justamente por causa do diminutivo.


Vamos ver outro exemplo, a canção "Azul", gravada por Djavan:


... até o sol nascer amarelinho queimando mansinho
cedinho, cedinho, cedinho
Corre e vai dizer pro meu benzinho
um dizer assim o amor é azulzinho


Nessa canção, Djavan usa e abusa do diminutivo afetivo. Para se referir às cores, por exemplo, ele usa "amarelinho", "azulzinho". E recorre ao diminutivo afetivo também com relação ao advérbio "cedo" (cedinho) e ao adjetivo "manso" (mansinho).
O diminutivo deve ser compreendido pelo valor específico que ele tem (de tamanho pequeno) e por valores como o afetivo e o depreciativo. Quando se fala "um homenzinho", por exemplo, nem sempre o homem que se tem em vista é pequeno. A pessoa pode usar o diminutivo não com a intenção de fazer referência ao tamanho da pessoa tampouco para transmitir afeto, mas com a intenção de ofender: "um homenzinho" pode equivaler a "um homem insignificante".
São vários os valores do diminutivo. Vimos aqui alguns exemplos, mas há outros que podem ser utilizados na vida diária.


Número
"patins", "óculos"
As pessoas comumente dizem "o patins". No entanto a forma "patins" é plural. São "os patins" ou, então, "o patim". O mesmo erro acontece, normalmente, com a palavra "óculos". Duas canções ilustram bem o problema.


A primeira é "Vampiro", de Jorge Mautner. A outra é "Como vovó já dizia", de Raul Seixas e Paulo Coelho. A letra de "Vampiro" diz:


... Eu uso óculos escuros pra minhas lágrimas esconder...


Jorge Mautner fala em "óculos escuros" e acerta. "Óculos" é plural de "óculo". Usamos dois óculos, um óculo para a vista direita e outro óculo para a vista esquerda. Logo, o aparelho corretor chama-se óculos.
Raul Seixas diz:"... quem não tem colírio usa óculos escuro". A concordância aqui não está adequada. A construção correta seria óculos escuros.


"Óculos" é plural, assim como "férias". Diz-se "As minhas férias" e não "A minha férias". Não se deve confundir "férias" com "féria", no singular, que é a arrecadação de dinheiro de um certo período.


Do mesmo modo, não se diz "o ciúmes", mas "o ciúme".


As cadeiras são azul-claras, as camisas azul-escuras.


Nesse caso a regra é esta: quando se trata de um adjetivo composto formado por dois adjetivos, mantém-se o primeiro e altera-se só o segundo. Exemplos:


proposta luso-brasileira, sentimento luso-brasileiro
cadeira azul-clara, cadeiras azul-claras

Plural de "sol"
(...)
Mas você pode ter certeza
de que seu telefone irá tocar
em sua nova casa
que abriga agora a trilha
incluída nessa minha conversão.
Eu só queria te contar
que eu fui lá fora
e vi dois sóis num dia
e a vida que ardia
sem explicação....


A letra acima foi extraída de "O segundo sol", canção de Nando Reis. Será que a palavra "sol" tem plural? Tem, sim. Não importa que exista apenas um sol. Essa palavra portuguesa pode perfeitamente ser pluralizada. O plural de "sol" é "sóis".
Qual é a regra que está por trás disso? Os substantivos terminados em "-al", "-el", "-ol" e "-ul" fazem o plural pela transformação do "l" dessas terminações em "-is".


sol/sóis
guarda-sol/guarda-sóis
canal/canais
papel/papéis


As exceções são "mal", "real (quando nome de moeda) e cônsul, cujo plural é, respectivamente, "males", "réis" e "cônsules".
É preciso lembrar que em "sóis", por exemplo, temos um ditongo aberto, "ói", que é tônico e deve ser acentuado.
No caso de "guarda-sol" temos uma palavra composta formada por um verbo, "guarda", e um substantivo, "sol". Para formar o plural em casos como esse, só o substantivo deve ser alterado.


o guarda-sol
os guarda-sóis.


"giz", "gravidez"
A palavra "ônibus" é plural ou singular? É as duas coisas, assim como a palavra "lápis".


singular: o ônibus / o lápis
plural: os ônibus / os lápis


Por que isso acontece? Os substantivos terminados em "-s" são invariáveis quando paroxítonos ("lápis") ou proparoxítonos ("ônibus").
De um modo geral, no entanto, os substantivos terminados em "-s" formam o plural com o acréscimo de "-es" (desde que não sejam paroxítonos ou proparoxítonos).
Se a palavra termina em "-r" ou "-z", também forma o plural com "-es". Muitos duvidam de que "giz" tenha plural. Como "cruz", esse substantivo varia normalmente:


o giz
os gizes


Outros exemplos de palavras terminadas em "-z" ou "-r":


a luz / as luzes
a gravidez/ as gravidezes
o prócer/os próceres
o mar/os mares
a raiz/as raízes


No caso de dúvida, uma boa saída é a consulta a um bom dicionário.


Número - Flexão de palavras compostas
Pau-de-arara / Pôr-do-sol

Em substantivos compostos com preposição no meio, varia apenas o primeiro elemento.
Para exemplificar, recorre a um trecho da música "O rancho da goiabada", de João Bosco e Aldir Blanc:


Ai, são pais-de-santo, paus-de-arara, são passistas....
Os bóias-frias quando tomam umas biritas...
Exemplos:

Pau -de- arara / Paus- de- arara

Pôr- do- sol / Pores -do- Sol

Mula- sem- cabeça / mulas- sem- cabeças

Outra regra diz que, em substantivos compostos formados por substantivo e adjetivo, variam os dois elementos.
Exemplos:

 

Bóia- fria / Bóias-Frias

Cavalo- marinho / cavalos-marinhos

Capitão- mor / Capitã-mores

A música "Verde e amarelo", de Roberto e Erasmo Carlos, sugere a terceira regra: em adjetivo composto formado por dois adjetivos, varia apenas o segundo elemento.


"verde e amarelo
verde e amarelo

É a camisa que eu visto
azul e branco também ..."


O professor aproveita e chama a atenção para um erro de concordância presente na letra. "Camisa" é substantivo feminino, portanto é "verde e amarela" a camisa que eu visto e não, "verde e amarelo". Quanto ao plural o correto é dizer "camisas verde-amarelas".

 


Outros exemplos:

Proposta ítalo-brasileira / propostas ítalo-brasileira

Clínica médico-odontológica / clinicas médico-odontológicas

Camisa vermelho- escura / camisas-vermelho-escuras


"mulas-sem-cabeça", "pés-de-moleque"


Palavra composta é aquela que resulta da fusão de duas ou mais palavras. Algumas podem surpreender: "planalto", por exemplo, é resultado da soma de ""plano" e "alto", e "petróleo" resulta da soma de "pedra" e "óleo". "Planalto" e "petróleo" são palavras compostas, como "couve-flor" e guarda-chuva".
Vejamos um trecho da letra de "Anjo de mim", canção de Ivan Lins e Vítor Martins:


Anjo de mim
Me faz amor
Abraçadinho
Meu coração
Começo e fim
Meu pôr-de-mim


Observe que o poeta Vítor Martins, autor da letra, criou a expressão "pôr-de-mim". Ela se assemelha a "pôr-do-sol", que por sua vez aparece na canção "Lilás", de Djavan:


... Raio se libertou
Clareou muito mais
Se encantou pela cor lilás
Prata na luz do amor
Céu azul
Eu quero ver o pôr-do-sol
Lindo como ele só
E gente pra ver e viajar
no seu mar de raio


Como fica o plural de palavras compostas, como "pôr-de-mim", "pôr-do-sol", "mula-sem-cabeça", "pé-de-moleque" etc.? Todas essas palavras são substantivos compostos com preposição entre as duas palavras que os formam. Para formar o plural, basta que se flexione apenas o primeiro elemento:


mulas-sem-cabeça
pés-de-moleque
pores-do-sol
pores-de-mim


Cuidado com um detalhe: o verbo "pôr" tem um acento diferencial. Já o plural do verbo substantivado, "pores", não leva o acento.