Por Paulo Tortello*
Gramática
Conta-se ter o ironista luso Eça de Queirós,
certa feita, instado que fora, por seu editor, a corrigir
as vírgulas de um escrito que enviara para publicação,
devolvido o material ao homem junto a uma página inteira
cheia de vírgulas, com instruções para
que as distribuísse pelo texto conforme melhor lhe
parecesse.
Real ou não, a historinha ilustra bem o que pode ser
a vírgula aos olhos dos mortais comuns: se assim a
trataria um mestre como o grande realista do caso do primo,
do crime do padre, que dizer de nós? Ara, as vírgulas...
Os sinais de pontuação visam a reconstituir
os ritmos e a melodia da fala. É freqüente ouvirmos
dizer que a vírgula situa-se entre os sinais que se
destinam a marcar pausas, juntamente com o ponto e o ponto-e-vírgula.
Contudo, isso é meia verdade.
Existem pausas, na frase, que não têm vírgulas,
como quando dizemos: "Eu vou e volto" - em que ocorre
pausa (mas não vírgula) após "vou".
Por outro lado, ocorrem vírgulas em frases que não
têm pausa, como em "Logo, logo, eu vou" (a
pronúncia é /logologo/).
Como se sabe, usam-se vírgulas em enumerações
ou em vocativos, quando chamamos alguém.
Mas, hoje, a vírgula é, antes de tudo, um "sinal
sintático". Isto quer dizer que ela marca a distribuição
dos termos em uma oração.
O importante, no caso, é observar duas regras fundamentais.
A primeira: oração com sujeito, verbo, objeto
e advérbio, nesta ordem (mesmo que não contenha
todos esses termos), nunca tem vírgulas. A segunda
é que oração fora dessa ordem sempre
tem vírgulas.
Por exemplo: se eu disser "João joga futebol à
noite", não posso colocar vírgula entre
"João" e "joga" (sujeito e verbo);
nem entre "joga" e "futebol" (verbo e
objeto); nem entre "joga futebol" e "à
noite" (verbo e advérbio; aqui, às vezes,
a vírgula é admissível).
Já, se a frase for montada com inversões, as
vírgulas ocorrerão: diremos "À noite,
João joga futebol" (advérbio, sujeito/verbo/objeto),
ou "João, à noite, joga futebol" (sujeito,
advérbio, verbo/objeto). E assim por diante.
O que não se pode é interromper, com uma só
vírgula, a ligação entre sujeito e verbo,
e entre verbo e objeto ou advérbio.
Vírgula antes de "etc."?
A abreviatura "etc." é de expressão
escrita originalmente em Latim - "et caetera" (que
se lê/etcétera/). Significa, ao pé da
letra, "'e' as outras 'coisas'".
Por causa de aparecer a conjunção "e"
na expressão, e porque ela se refere a "coisas",
há quem advogue que, antes de etc., não se admite
vírgula, e que o termo somente se aplica para objetos
- nunca a seres vivos. Parece haver, aí, rigor demais.
Convém observar, primeiramente, que utilizamos o etc.
exclusivamente em sua forma abreviada - etc. (Lembre-se de
que o ponto de abreviatura também faz as vezes do ponto
final, a exemplo da última frase anterior a estes parênteses.)
Se quiser escrever a expressão, aportuguese-a em uma
só palavra, acentuada por ser proparoxítona:
"etecétera".
Em seguida, é preciso saber que a legislação
ortográfica brasileira, em "todas" as vezes
que utiliza o etc., o faz "com" vírgula antes,
o que acaba não apenas autorizando seu uso, mas abonando
uma verdadeira regra.
Quanto a etc. referir objetos ou pessoas, hoje em dia não
se faz diferença. Você pode dizer, por exemplo:
"estavam presentes coronéis, capitães,
sargentos, etc.", ou: "meu pai, minha mãe,
minha tia, etc.", ou até relacionar as pessoas
pelos nomes: "João, Maria, José, etc.".
Esses usos todos são considerados corretos. "Com"
vírgula antes de etc.
Vírgula antes de "e" e "mas"?
Em geral, aprende-se que, antes de "e" ou "mas",
jamais se usam vírgulas. Trata-se de casos distintos.
Normalmente, não se utiliza vírgula antes do
"e". Geralmente, usa-se vírgula antes do
"mas".
O "e" não necessita de vírgula quando
liga o último elemento de uma enumeração;
diremos: "Estavam presentes Antônio, João,
Maria e José" (sem vírgula antes do "e").
Por outro lado, utilizamos a vírgula antes do "mas"
no espaço entre uma afirmação e seu contrário:
"Vou embora, mas voltarei logo". A vírgula
pode aparecer também depois do "mas", quando
se intercala uma frase: "O quadro era velho mas, dadas
as circunstâncias, tinha um valor enorme".
Todos esses casos admitem exceções: o "e"
igualmente terá vírgula antes dele, se também
intercalar uma oração, como no exemplo acima
com o "mas"; o mesmo ocorrerá se iniciar
oração com sujeito diferente da oração
anterior: "O menino comprou o caderno, e o livro era
da menina". (A vírgula evita a confusão
"comprou o caderno e o livro", facilitando o entendimento;
a clareza é a primeira qualidade de um texto.)
Lembre-se: o "mas", geralmente, é antecedido
de vírgula; o "e", geralmente, dispensa esse
sinal.
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Estilística & Leitura
O ponto da vírgula
Para quem deseje aprofundar-se no estudo do uso da vírgula
não falta bibliografia. Um dos mais práticos
manuais nos foi deixado pelo filólogo gaúcho
Celso Pedro Luft com seu livro "A Vírgula"
(Editora Ática, 1996). Em pouco mais de 80 páginas,
o autor, que define a vírgula como "sinal de pontuação
que indica falta ou quebra de ligação sintática",
explica didaticamente o uso da vírgula em uma diversidade
de situações, todas ilustradas com exemplos
elucidativos. Encomende em sua livraria!
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Curiosidades
Vírgula a dar com pauzinho
Até mesmo o nome de um pequeno sinal como a vírgula
tem seu significado especial. A palavra vem do Latim "virgula",
formada de "virga"(= vara) mais "ula"
(sufixo diminutivo): vírgula significa "varinha".
Desde antigamente, tinha sua forma de um pequenino ramo.
VÍRGULA PROIBIDA
Não
se podem separar elementos sintaticamente vinculados por UMA
vírgula. Se houver bloco sintático entre esses
elementos, colocam-se DUAS vírgulas para destacá-lo
ou NENHUMA vírgula.
Eis um texto de um órgão superior da UCG, com
os dados devidamente alterados:
Vimos por meio desta, informar que Pancrácia de Jesus,
estará participando da apresentação do
Fórum sobre meninos de rua em....
Neste sentido, solicitamos de V. Sa., o abono de falta, neste
período.
Vimos informar é locução verbal. A vírgula
separou seus elementos indevidamente. Duas redações
corretas: vimos, por meio desta, informar... / vimos por meio
desta informar...
Pancrácia de Jesus é o sujeito, devendo estar
estreitamente vinculado ao predicado estará participando...
A vírgula ali posta está sobrando. Correção:
Pancrácia de Jesus estará participando...
Solicitamos é a flexão verbal, cujo objeto direto
é o abono de falta. São elementos também
vinculados. A vírgula está a mais. Correção:
solicitamos de V. Sa. o abono de falta...
Alguns detalhes ainda merecem reparo:
pra que dizer vimos, se o remetente é uma pessoa só?;
escreva venho, solicito, sem receio;
pra que dizer venho informar, se é mais sóbrio
e direto informo?;
por meio desta é totalmente desnecessário;
neste sentido é bobagem pura, porque o que se quer afirmar
é o motivo; depois, não é neste, mas nesse,
porque se refere ao que já foi dito; o certo, portanto,
é por isso / por esse motivo / por causa disso;
neste período não, nesse período, porque
se reporta a data já conhecida.
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