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ARIANO SUASSUNA - O
AUTO DA COMPADECIDA - Resumo e análise
O AUTO DA COMPADECIDA E O ESTILO DE
ÉPOCA
O teatro, isto é, o texto teatral é uma forma
cultural, diferente de outras formas culturais que têm
no texto seu veículo de comunicação. Uma
peça teatral, portanto, não é a mesma coisa
que um romance, um conto ou um poema, esse últimos indicativos
de outra forma cultural, a Literatura.
Em linhas gerais, o teatro recebe um impacto muito maior dos
condicionamentos de um dado momento histórico, do que,
por outro lado, recebe a literatura. Esses impactos se refletem
na temática, no tratamento do assunto, nas técnicas
propriamente teatrais (cenarização, cenografia,
ritmo, iluminação, etc.). Por outro lado, uma
peça teatral pode descobrir motivos de criação
em outras modalidades essas que podem ou não interessar
à Literatura.
Uma tragédia de Ésquilo, concebida nos elementos
estruturais da cultura grega clássica, pode adquirir
uma roupagem interpretativa moderna, e, como representação
de um texto, ser perfeitamente assimilável pelo público
contemporâneo, tornando-se com isso uma peça moderna.
O grande dramaturgo brasileiro, Guilherme de Figueiredo, compôs
uma série de textos do teatro moderno brasileiro, que
consistem na imposição de uma nova "roupagem"
a determinados temas da cultura grega clássica.
Em resumo, quando tentamos verificar a que estilo de época
se liga um texto teatral, deveremos fazê-lo, não
em função de critérios válidos para
a Literatura, mas em função de critérios
possíveis para a história do teatro.
Nesse sentido, verificamos que Auto da Compadecida apresenta
os seguintes elementos que permitem a identificação
de sua participação num determinado estilo de
época da evolução cultural brasileira:
1- O texto propõe-se como um auto. Dentro da tradição
da cultura de língua portuguesa, o auto é uma
modalidade do teatro medieval, cujo assunto é basicamente
religioso. Assim o entendeu Paula Vicente, filha de Gil Vicente,
quando publicou os textos de seu pai, no século XVI,
ordenando-os principalmente em termos de autos e farsas.
Essa proposta conduz a que a primeira intenção
do texto está em moldá-lo dentro de um enquadramento
do teatro medieval português, ou mais precisamente dentro
das perspectivas do teatro de Gil de Vicente, que realizou o
ideal do teatro medieval um século mais tarde, isso no
século XVI, portanto, em plano Quinhentismo (estilo de
época).
2- O texto propõe-se como resultado de uma pesquisa sobre
a tradição oral dor a romanceiros e narrativas
nordestinas, fixados ou não em termos de literatura de
cordel. Propõe, portanto, um enfoque regionalista ou,
pelo menos, organiza um acervo regional com vistas a uma comunicação
estética mais trabalhada.
3- A síntese de um modelo medieval com um modelo regional
resulta, na peça, como concebida pelo Autor. Se verificarmos
que as tendências mais importantes do Modernismo definem-se
no esforço por uma síntese nacional dos processos
estáticos, poderemos concluir que o texto do Auto da
Compadecida se insere nas preocupações gerais
desse es tilo de época, deflagrado a partir de 1922,
com a Semana de Arte Moderna, em São Paulo. Um modelo
característico dessa síntese se encontra em Macunaíma,
de Mário de Andrade, de 1927, e em Grande Sertão:
Veredas, de Guimarães Rosa (1956), entre outros.
A ESTRUTURA DO AUTO DA COMPADECIDA
A - Personagens. A peça apresenta quinze personagens
de cena e uma personagem de ligação e comando
do espetáculo.
PRINCIPAL: João Grilo
OUTRAS: Chicó, Padre João, Sacristão, Padeiro,
Mulher do Padeiro, Bispo, Cangaceiro, o Encourado, Manuel, A
Compadecida, Antônio Morais, Frade, Severino do Aracaju,
Demônio.
LIGAÇÃO: Palhaço
As personagens são colocadas em primeiro lugar na análise
da estrutura da peça porque ela assumem uma posição
simbólica, e é desse simbolismo que deriva a importância
do texto.
• João Grilo é a personagem principal porque
atua como criador de tosa as situações da peça.
• As demais personagens compõem o quadro de cada
situação.
• O Palhaço, representando o Autor, liga o circo
à representação do Auto da Compadecida.
Organizado o quadro desses personagens, vejamos agora as características
de cada uma delas.
a) JOÃO GRILO. A dimensão de
sua importância surge logo no início da peça
quando as personagens são apresentadas ao público
pelo Palhaço. Apenas duas personagens se dirigem ao público.
Uma, a chamado do Palhaço, a atriz que vai representar
a Compadecida, e João Grilo.
"PALHAÇO: Auto da Compadecia! Umas história
altamente moral e um apelo à misericórdia.
JOÃO GRILO: Ele diz "à misericórdia",
porque sabe que, se fôssemos julgados pela justiça,
toda a nação seria condenada" (p.24).
Mas a importância inequívoca de João Grilo
na estrutura da peça define-se a partir do fato de que
as situações do Auto da Compadecida são
todas desenvolvidas por essa personagem:
1ª) a benção do cachorro, e o expediente
utilizado: o Major Antônio Morais. JOÃO GRILO:
"Era o único jeito de o padre prometer que benzia.
Tem medo da riqueza do major que se péla. Não
viu a diferença? Antes era " Que maluquice, que
besteira!", agora "Não veja mal nenhum em se
abençoar as criatura de Deus!" (p.33).
2ª) a loucura do Padre João, como justifica para
o Major Antônio Morais. JOÃO GRILO: /.../ "É
que eu queria avisar para Vossa Senhoria não ficar espantado:
o padre está meio doido".(p.40). "Não
sei, é a mania dele agora. Benzer tudo e chama a gente
de cachorro"(p.41).
3ª) o testamento do cachorro. JOÃO GRILO: "Esse
era um cachorro inteligente. Antes de morrer, olhava para a
torre da igreja toda vez que o sino batia. Nesses últimos
tempos, já doente para morrer, botava uns olhos bem compridos
para os lados daqui, latindo na maior tristeza. Até que
meu patrão entendeu, coma a minha patroa, é claro,
que ele queria ser abençoada e morrer como cristão.
Mas nem assim ele sossegou. Foi preciso que o patrão
prometesse que vinha encomendar a benção e que,
no caso de ele morrer, teria um enterro em latim. Que em troca
do enterro acrescentaria no testamento dele dez contos de réis
para o padre e três para o sacristão" (p.63-64).
4ª) o gato que "descome dinheiro". JOÃO
GRILO: "Pois vou vender a ela, para tomar lugar do cachorro,
um gato maravilhoso, eu descome dinheiro" (p.38). "Então
tiro. (Passa a mão no traseiro do gato e tira uma prata
de cinco tostões). Esta aí, cinco tostões
que o gato lhe dá de presente"(p.96).
5ª) a gaita que fecha o corpo e ressuscita. JOÃO
GRILO: "Mas cura. Essa gaita foi benzida por Padre Cícero,
pouco antes de morrer" (p.122).
6ª) a "visita" ao Padre Cícero. JOÃO
GRILO: "Seu cabra lhe dá um tiro de rifle, você
vai visitá-lo. Então eu toco na gaita e você
volta" (p.127).
Essa situação decorre da anterior, mas pode ser
considerada com o independente.
7ª) o julgamento pelo Diabo (o Encourado). JOÃO
GRILO: "Sai daí, pai da mentira! Sempre ouvi dizer
que para se condenar uma pessoa ela tem de ser ouvida!"(p.144).
8ª) o apelo à misericórdia (À Virgem
Maria). JOÃO GRILO: "Ah, isso é comigo. Vou
fazer um chamado especial, em verso. Garanto que ela vem, querem
ver?" (p.169).
Observemos agora a distribuição das personagens
nas situações acima definidas, situações
essas todas elas deflagradas por João Grilo, como já
foi observado:
SITUAÇÃO/ PERSONAGENS/ CONTEÚDO
DA SITUAÇÃO
1ª João Grilo Chicó Padre João: a
bênção do cachorro da mulher do padeiro.Expediente
de João Grilo: o cachorro pertence ao Major Antônio
Morais.
2ª João Grilo Chicó Antônio Morais
Padre: chega o Major Antônio Morais.Expediente de João
Grilo: o Padre João está maluco, benze a todos
e chama todo mundo de cachorro.
3ª João Grilo Padre MulherPadeiro Chicó Sacristão
Bispo: o testamento do cachorro morto.Expediente de João
Grilo: o cachorro morto, encomendado em latim e tudo mais, deixa
no seu testamento dinheiro para o Sacristão, para o Padre
e para o Bispo.Fonte do dinheiro: o Padeiro e sua mulher.
4ª João Grilo Chicó Mulher: a mulher do Padeiro
lamenta a perda de seu cachorro.Expediente de João Grilo:
arranja-lhe um gato que descome dinheiro. Vende-o e afaz seu
lucro.
5ª João Grilo Chicó Bispo Padre Padeiro Frade
Sacristão Mulher Severino (do Aracaju) Cangaceiro: o
assalto do cangaceiro Severino do Aracaju.Expediente de João
Grilo: a gaita que fecha o corpo e ressuscita. A bexiga cheia
de sangue.Evento especial: todas as personagens morrem, inclusive
João Grilo.
Salva-se Chico
6ª Palhaço João Grilo Chicó
Todas as demais personagens Demônio O Encourado Manuel:
ressurreição no picadeiro do circo. O Julgamento
pelo Demônio, pelo Encourado e por Manuel (Cristo).Expediente
de João Grilo: forçar o julgamento, ouvindo os
pecadores.
7ª Todas as personagens A Compadecida: condenação
dos pecadores, Expediente de João Grilo: apelo à
misericórdia da Virgem Maria.
Pela composição do quadro acima, nota-se que em
todas as seqüências a presença de João
Grilo é fundamental. Daí a afirmação
de que a peça gira em torno dessa personagem, do ponto
de vista estrutural.
Que é João Grilo?
• João Grilo é uma figura típica
do nordestino sabido, analfabeto e amarelo.
• Habituado a sobreviver e a viver a partir e expedientes,
trabalha na padaria, vive em desconforto e a miséria
é sua companheira.
• Sua fé nas artimanhas que cria, reflete, no fundo,
uma forma de crença arraigada na proteção
que recebe, embora sem saber, da Compadecida. É essa
convicção que o salva. E ele recebe nova oportunidade
de Manuel (Cristo), retornando- à vida e à companhia
de Chicó. É uma oportunidade inusitada de ressurreição
e retorno à existência. Caberá a ele provar
que essa oportunidade foi ou não bem aproveitada.
b) CHICÓ. Companheiro constante de João Grilo
e, especialmente, seu diálogo. Chicó envolve-se
nos expedientes de João Grilo e é seu parceiro,
mais por solidariedade do que por convicção íntima.
Mas é um amigo leal.
c) PADRE JOÃO, O BISPO e o SACRISTÃO. Essas personagens,
embora de atuação diversa, estão concentradas
em torno de simonia e da cobiça, relacionada com a situação
contida no testamento do cachorro.
d) ANTÔNIO MORAIS. É a autoridade decorrente do
poder econômico, resquício do coronelismo nordestino,
a quem se curvam a política, os sacerdotes e a gente
miúda.
e) PADEIRO e sua MULHER. Encarnam, um lado, a exploração
do homem pelo homem e, de outro, o adultério.
f) SEVERINO DO ARACAJU e o CANGACEIRO. Representam a crueldade
sádica, e desempenham um papel importante na seqüência
de número cinco, porque nessa seqüência matam
e são mortos. Com isso propicia-se a ressurreição
e o julgamento.
g) O ENCOURADO e o DEMÔNIO. Julgam, aguardando seu benefício,
isto é, o aumento da clientela do inferno. É importante
verificar que representam, de alguma forma, um instrumento da
Justiça, encarnado em Manuel (O Cristo).
h) MANUEL. É o Cristo negro, justo e onisciente, encarnação
do verbo e da lei. Atua como julgador final dos da prudência
mundana, do preconceito, do falso testemunho, da velhacaria,
da arrogância, da simonia, da preguiça. Personagem
a personagem têm seu pecado definido e analisado, com
sabedoria e com prudência.
i) A COMPADECIDA. É Nossa Senhora, invocada por João
Grilo, o ser que lhe dará a Segunda oportunidade da vida.
Funciona efetivamente como medianeira, plena de misericórdia,
intervindo a favor de quem nela crê, João Grilo.
B- Estrato metafísico. Pela atuação das
personagens, pelo sentido global que encima a peça, percebemos
claramente que nela existe uma proposição metafísica,
vinculada à Igreja Católica e à idéia
da salvação.
Ao lado da significação global do texto, como
estrutura, o Palhaço define essa proposição
claramente.
O Palhaço realiza, nessa peça, o papel do Corifeu,
no teatro clássico, e sua intervenção corresponde
à parábase da comédia clássica -
trecho fora do enredo dramático em que as idéias
e as intenções ficam claramente expressas:
PALHAÇO: "Ao escreve esta peça, onde combate
o mundanismo, praga de sua igreja, o autor quis ser representado
por um palhaço, para indicar que sabe, mais do que ninguém,
que sua lama é um velho catre, cheio de insensatez e
de solércia. Ele não tinha o direito de tocar
nesse tema, mas ousou fazê-lo, baseado no espírito
popular de sua gente, porque acredita que esse povo sofre, é
um povo e tem direito a certas intimidades" (p.23-24).
"/.../ Espero que todos os presente aproveitem os ensinamentos
desta peça e reformem suas vidas, se bem que eu tenho
certeza de que todos os que estão aqui são uns
verdadeiros santos, praticantes da virtude, do amor a Deus e
ao próximo, sem maldade, sem mesquinhez, incapazes de
julgar e de falar mal dos outros, generosos, sem avareza, ótimos
patrões, excelentes empregados, sóbrios, castos
e pacientes" (p.137).
A intenção moral, ou moralidade da peça,
fica muito clara, desde que se torne claro, também, que
essa intenção vincula-se a uma linha de pensamento
religioso, e da Igreja Católica.
NOTA: Adaptado da análise do livro Vestibular-76
(1976), da Editora O Lutador-MG, edição dirigida
aos exames vestibulares da UFMG.
O Filme:
Título Original: O Auto da Compadecida
Gênero: Comédia
Origem/Ano: BRA/1999
Duração: 104 min
Direção: Guel Arraes / Mauro Mendonça Filho
Elenco:
Fernanda Montenegro... A Compadecida
Matheus Nachtergaele...Jõao Grilo
Selton Mello...Chicó
Lima Duarte...O Bispo
Rogério Cardoso...Padre João
Denise Fraga...Dora
Diogo Vilela...Padeiro Eurico
Maurício Gonçalves...Jesus Cristo
Marco Nanini...Severino de Aracaju
Luis Mello...Diabo
Paulo Goulart...Major A.Moraes
Virginia Cavendish...Rosinha
Bruno Garcia...Vicentao
Enrique Díaz...Cangaceiro
Aramis Trindade...Cabo Setenta
Sinopse: As aventuras de um sertanejo pobre e mentiroso, chamado
João Grilo, narradas na premiada peça Auto da
Compadecida, de Ariano Suassuna, originalmente escrita em 1955
chega ao cinema na versão de Guel Arraes, Adriana Falcão
e João Falcão. O filme tem a direção
de Guel Arraes, que filmou em Cabaceiras, no sertão da
Paraíba (a peça é situada em Taperoá,
pertinho de Cabaceiras), e ainda ganhou trilha sonora original,
com produção de João Falcão, e um
tratamento visual que faz um paralelo entre o Nordeste dos anos
30 e a Idade Média.
Matheus Nachtergaele interpreta João Grilo, o nordestino
sabido, que luta pelo pão de cada dia, e atravessa vários
episódios enganando a todos, ao lado de Chicó
(Selton Mello), seu companheiro de estrada. Descritos como personagens
picarescos pelo diretor Guel Arraes, João Grilo e Chicó
são os protagonistas desta história.
(Apostila 5 de Contemporânea da Lit. Brasileira)
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