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Primeiras Estórias
Guimarães Rosa
Resumo Obra publicada em 1962, reúne 21 contos. Trata-se
do primeiro conjunto de histórias compactas a seguir
a linha do conto tradicional, daí o "Primeiras"
do título. O escritos acrescenta, logo após, o
termo estória, tomando-o emprestado do inglês,
em oposição ao termo História , designando
algo mais próximo da invenção, ficção.
No volume, aborda as diferentes faces do gênero: a psicológica,
a fantástica, a autobiográfica, a anedótica,
a satírica, vazadas em diferentes tons: o cômico,
o trágico, o patético, o lírico, o sarcástico,
o erudito, o popular. As estórias captam episódios
aparentemente banais. As ocorrências farejadas através
dos protagonistas transformam-se de uma espécie de milagre
que surge do nada, do que não se vê, como diz o
próprio Guimarães Rosa; "Quando nada acontece,
há um milagre que não estamos vendo". Este
milagre pode ser então, responsável pela poesia
extraída dos fatos mais corriqueiros, pela beleza de
pensar no cotidiano e não apenas vivê-lo, pelo
amor que se pode ter pelas coisas da terra, pelo homem simples,
pelo mistério da vida. Dos "causos " narrados
brotam encanto e magia frutos da sensibilidade de um poeta deslumbrado
com a paisagem natural e/ou recriada de Minas Gerais. Enredos
I - "As margens da alegria". Um menino descobre a
vida, em ciclos alternados de alegria (viagem de avião,
deslumbramento pela flora, e fauna) e tristeza (morte do peru
e derrubada de uma árvore). II - "Famigerado".
O jagunço Damázio Siqueira atormenta-se com um
problema vocabular: ouviu a palavra "famigerado" de
um moço do governo e vai procurar o farmacêutico,
pessoa letrada do lugar, para saber se tal termo era um insulto
contra ele, jagunço. III - "Sorôco, sua mãe,
sua filha". Um trem aguarda a chegada da mãe e da
filha de Sorôco, para conduzi - las ao manicômio
de Barbacena. Durante o trajeto até a estação,
levadas por Sorôco , elas começam surpreendentemente
a cantar. Quando o trem parte, Sorôco volta para casa
cantando a mesma canção, e os amigos da cidadezinha
, solidariamente, cantam junto. IV - "A menina e lá".
Nhinhinha possuía dotes paranormais : seus desejos, por
mais estranhos que fossem, sempre se realizavam. Isolados na
roça, seus parentes guardam em segredo o fenômeno,
para dele tirar proveito. As reticentes falas da menina tinham
caráter de premonição: por exemplo, o pai
reclamara da impiedosa seca. Nhinhinha "quis" um arco-íris,
que se fez no céu, depois de alentadora chuva. Quando
ela pede um caixãozinho cor-de-rosa com enfeites brilhantes
ninguém percebe que o que ela queria era morrer... V
- "Os irmão Dagobé". O valentão
Damastor Dagobé, depois de muito ridicularizar Liojorge,
é morto por ele. No arraial, todos dão como certa
a vingança dos outros Dagobé : Doricão
, Dismundo e Derval. A expectativa da revanche cresce quando
Liojorge comunica a intenção de participar do
enterro de Damastor. Para surpresa de todos, os irmãos
não só concordam, como justificam a atitude de
Liojorge, dizendo que Damastor teve o fim que mereceu. VI -
"A terceira margem do rio". Um homem abandona família
e sociedade, para viver à deriva numa canoa, no meio
de um grande rio. Com o tempo, todos, menos o filho primogênito,
desistem de apelar para o seu retorno e se mudam do lugar. O
filho, por vínculo de amor, esforça-se para compreender
o gesto paterno: por isso, ali permanece por muitos anos. Já
de cabelos brancos e tomado por intensa culpa, ele decide substituir
o pai na canoa e comunica-lhe sua decisão. Quando o pai
faz menção de se aproximar, o filho se apavora
e foge, para viver o resto de seus dias ruminando seu "falimento"
e sua covardia. VII - "Pirlimpsiquice". Um grupo de
colegiais ensaia um drama para apresentá-lo na festa
do colégio. No dia da apresentação, há
um imprevisto, e um dos atores se vê obrigado a faltar.
Como não havia mais possibilidade de se adiar a apresentação,
os adolescentes improvisam uma comédia, que é
entusiasticamente bem recebida pela platéia. VIII - "Nenhum,
nenhuma". Uma criança, não se sabe se em
sonho ou realidade, passa férias numa fazenda, em companhia
de um casal de noivos, de um homem triste e de uma velha velhíssima,
de quem a noiva cuidava. O casal interrompe o noivado, e o menino,
que conhecera o Amor observando-os, volta para a casa paterna.
Lá chegando, explode sua fúria diante dos pais
ao notar que eles se suportavam, pois tinham transformado seu
casamento num desastre confortável. IX - "Fatalidade".
Zé Centeralfe procura o delegado de uma cidadezinha,
queixando-se de que Herculinão Socó vivia cantando
sua esposa. A situação tornara-se tão insuportável
que o casal mudara de arraial. Não adiantou: o Herculinão
foi atrás. O delegado, misto de filósofo, justiceiro
e poeta, depois de ouvir pacientemente a queixa, procura o conquistador
e, sem a mínima hesitação, mata-o, justificando
o fato como necessário, em nome da paz e do bem-estar
do universo. X - "Seqüência". Uma vaca
fugitiva retorna a sua fazenda de origem. Decidido a resgatá-la,
um vaqueiro persegue-a com incomum denodo. Ao chegar à
fazenda para onde a vaca retornara, o vaqueiro descobre que
havia outro motivo para sua determinação: a filha
do fazendeiro, com quem o rapaz se casa. XI - "O espelho".
Um sujeito se coloca diante de um espelho, procurando reeducar
seu olhar. apagando as imagens do seu rosto externo. A progressão
desses exercícios lhe permite, daí a algum tempo,
conhecer sua fisionomia mais pura, a que revela a imagem de
sua essência. XII - "Nada e a nossa condição".
O fazendeiro Tio Man 'Antônio, com a morte da esposa e
o casamento das filhas, sente-se envelhecido e solitário.
Decide vender o gado, distribuindo o dinheiro entre as filhas
e genros. A seguir, divide sua fazenda em lotes e os distribui
entre os empregados, estipulando em testamento uma condição
que só deveria ser revelada quando morresse. Quando o
fato ocorre, os empregados colocam seu corpo na mesa da sala
da casa-grande e incendeiam a casa: a insólita cerimônia
de cremação era seu último desejo. XIII
- "O cavalo que bebia cerveja". Giovânio era
um velho italiano de hábitos excêntricos: comia
caramujo e dava cerveja para cavalo. Isso o tornara alvo da
atenção do delegado e de funcionários do
Consulado, que convocam o empregado da chácara de "seo
Giovânio", Reivalino, para um interrogatório.
Notando que o empregado ficava cada vez mais ressabiado e curioso,
o italiano resolve então abrir a sua casa para Reivalino
e para o delegado: dentro havia um cavalo branco empalhado.
Passado um tempo, outra surpresa: Giovânio leva Reivalino
até a sala, onde o corpo de seu irmão Josepe ,
desfigurado pela guerra, jazia no chão. Reivalino é
incumbido de enterrá-lo, conforme a tradição
cristã. Com isso, afeiçoa-se cada vez mais ao
patrão, a ponto de ser nomeado seu herdeiro quando o
italiano morre. XIV - "Um moço muito branco".
Os habitantes de Serro Frio, numa noite de novembro de 1872,
têm a impressão de que um disco voador atravessou
o espaço, depois de um terremoto. Após esses eventos,
aparece na fazenda de Hilário Cordeiro um moço
muito branco, portando roupas maltrapilhas. Com seu ar angelical,
impõe-se como um ser superior, capaz de prodígios:
os negócios de Hilário Cordeiro, o fazendeiro
que o acolheu, têm uma guinada espantosamente positiva.
Depois de fatos igualmente miraculosos, o moço desaparece
do memo modo que chegara. XV - "Luas-de-mel". Joaquim
Norberto e Sa- Maria Andreza recebem em sua fazenda um casal
fugitivo, versão sertaneja de Romeu e Julieta. Certos
de que os capangas do pai da moça virão resgatá-la,
todos se preparam para um enfrentamento: a casa da fazenda transforma-se
num castelo fortificado. É nesse clima de tensão
que se celebra o casamento dos jovens, a que se segue a lua-de-mel,
que acontece em dose dupla: dos noivos e do velho casal de anfitriões,
cujo amor fora reavivado com o fato. Na manhã seguinte,
a expectativa se esvazia com a chegada do irmão da donzela,
que propõe solução satisfatória
para o caso. XVI - "Partida do audaz navegante". Quatro
crianças, três irmãs e um primo, brincam
dentro de casa, aguardando o término da chuva. A caçula,
Brejeirinha , brinca com o que lhe dava mais prazer: as palavras.
Inventa uma estória do tipo Simbad , o marujo, que ganha
novos elementos quando todos vão brincar no quintal,
à beira de um riacho. Liberando sua fantasia, Brejeirinha
transforma um excremento de gado no "audaz navegante",
colocando-o para navegar riacho abaixo. XVII - "A benfazeja".
Mula- Marmela era mulher de Mumbungo , sujeito perverso que
se excitava com o sangue de suas vítimas. Esse vampiro
tinha um filho, Retrupé , cujo prazer só diferia
do do pai quanto à faixa etária das vítimas:
preferia as mais frescas. Apesar de amar seu homem e ser correspondida,
Mula-Marmela não hesitara em matá-lo e depois
cegar Retrupé, de quem se torna guia. Passado algum tempo,
resolve assassiná-lo: percebe que esta seria a única
maneira de refrear o instinto de lobisomem do rapaz. XVIII -
"Darandina". Um sujeito bem- vestido rouba uma caneta,
é surpreendido e, para escapar dos que o perseguem, escala
uma palmeira. Uma multidão acompanha atentamente os esforços
das autoridades, que procuram convencer o rapaz a descer. Resistindo,
ele diz frases desconexas e tira toda a roupa, revelando notável
equilíbrio físico. A sessão de nudismo
leva um médico a nova tentativa de diálogo. Ao
se aproximar, o médico percebe que o sujeito voltara
à normalidade e que, envergonhado, pedia socorro. A multidão,
sentindo-se ludibriada, não aceita essa sanidade repentina
e se dispõe a linchá-lo. Sentindo o risco, o sujeito
berra um grito de louvor à liberdade, motivo bastante
para a multidão ovacioná-lo e carregá-lo
nos ombros. XIX - "Substância". O fazendeiro
Sionésio apaixona-se por sua empregada Maria Exita ,
que fora abandonada pela família e criada pela peneireira
Nhatiaga . Na fazenda, o ofício de Maria Exita era o
de quebrar polvilho, trabalho duro mas que a moça realizava
com prazer e competência. Embora preocupado com a ascendência
da moça, Sionésio sente que a paixão é
maior que o preconceito e pede-a em casamento. XX - "Tarantão,
meu patrão". O fazendeiro João - de - Barros
- Dinis - Robertes tem uma surpreendente explosão de
vitalidade em sua velhice caduca. Como se fora um Quixote, determina-se
a matar seu médico: o Magrinho, seu sobrinho - neto.
Ao longo da viagem rumo à cidade, recruta um bando de
desocupados, ciganos e jagunços, que acatam sua liderança,
pelo carisma natural do velho. Chegando à "frente
de batalha", Tarantão percebe que era dia de festa:
uma das filhas de Magrinho fazia aniversário. O susto
inicial, provocado pela invasão do "exército",
transforma-se em alívio quando o velho discursa, dizendo
de seu apreço pela família e pelos novos amigos,
colecionados ao longo da última cavalgada. XXI - "Os
cimos". O menino da primeira estória revela agora
a face do sofrimento, causado pela doença da Mãe,
fato que apressa sua viagem de volta à casa paterna.
Os últimos dias de férias são de preocupação.
O Menino só relaxava quando via, todas as manhãs
e sempre à mesma hora, um tucano se aproximar da casa
dos rios, onde se hospedava. Num processo de sublimação,
desencadeado pela beleza da ave, o Menino ganha energia para
resistir e para transferir à Mãe uma carga de
fluidos mentais positivos, que lhe permitam superar a doença.
Quando o Tio o procura para comunicar a melhora da Mãe,
o Menino experimenta momentos de êxtase, pois só
ele sabia do motivo da cura. Foco Narrativo As indicações
feitas a seguir são pontuadas com os algarismos que indicam
a ordem de publicação de cada estória no
livro. Assim, dez delas têm o foco relato centrado na
terceira pessoa: I-" As margens da alegria"; II-"
Famigerado" ;III- "Sorôco, sua mãe, sua
filha"; IV-"A menina de lá"; V-"
Os irmãos Dagobé"; VIII-" Nenhum , nenhuma";
X-"Seqüência "; XIV-"Um moço
muito branco"; XIX-" Substância" e XXI-"Os
cismos". As onze estórias restantes são relatadas
em primeira pessoa: VI-"A terceira margem do rio";
VII- " Pirlimpsiquice"; IX-" Fatalidade ";
XI-"O espelho"; XII- "Nada e a nossa condição";
XIII-"O cavalo que bebia cerveja"; XV-" Luas
de mel"; XVI-" Partida do audaz navegante"; XVII-"A
benfazeja"; XVIII-" Darandina " e XX-"Tarantão,
meu patrão". Dessas onze estórias, apenas
duas apresentam o narrador como protagonista: "O espelho"
e "Pirlimpsiquice"; nas outras, o relato é
feito por um espectador privilegiado, que presencia a ação
e registra suas impressões a respeito do que assiste.
O narrador pode ser também um personagem secundário
da estória, com laços de parentesco ou e amizade
com o protagonista. Quanto ao emprego dos tempos verbais, nota-se
que, na maior parte das estórias, o relato se faz através
de uma mistura do pretérito perfeito com o pretérito
imperfeito do indicativo. Espaço A maioria das estórias
se passa em ambiente rural não especificado, em sítios
e fazendas; algumas têm como cenário pequenos lugarejos,
arraiais ou vilas. Os ambientes são apresentados com
poucos mas precisos toques: moldura de altos morros, vastos
horizontes, grandes rios, pastos extensos, escassas lavouras.
Duas estórias, no entanto - "O espelho" e "Darandina"
-, transcorrem em cidades, pressupostas até como grandes
centros urbanos, pelo fato de mencionarem a existência
de secretarias de governo, hospício, corpo de bombeiros,
jornalistas, parques de diversões, prédios de
repartições públicas e outros serviços
tipicamente urbanos.Personagens Embora variem muito quanto à
faixa etária e experiência de vida, as personagens
se ligam por um aspecto comum: suas reações psicossociais
extrapolam o limite da normalidade. São crianças
e adolescentes superdotados, santos, bandidos, gurus sertanejos,
vampiros e, principalmente, loucos: sete estórias apresentam
personagens com este traço.
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