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Cartas
Chilenas
Cartas Chilenas é um conjunto de poemas, escritos em
versos decassílabos e brancos, com uma metrificação
parecida com a da epopéia, e circularam anonimamente
em Vila Rica, entre 1787 e 1788, seus versos assumem um tom
satírico.
É uma obra satírica, constituindo poema truncado
e inacabado (13 cartas), na qual um morador de Vila Rica ataca
a corrupção do Governador Luís da Cunha
Menezes. Aponta as irregularidades de seu governo, configurando
o ambiente de Vila Rica ao tempo da preparação
política da Inconfidência Mineira. Em julho deste
ano de 1878, Cunha Menezes deixaria o governo de Minas, em favor
do Visconde de Barbacena.
Onde se deveria ler Portugal, Lisboa, Coimbra, Minas e Vila
Rica, lê-se Espanha, Madrid, Salamanca, Chile e Santiago.
Os nomes aparecem quase sempre deformados: Menezes é
Minésio. Há apelidos e topônimos inalterados,
como: Macedo, a ermida do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, a
igreja do Pilar. O autor se dá o nome de Critilo e chama
o destinatário de Doroteu. Finalmente, os fatos aludidos
são facilmente identificados pelos leitores contemporâneos.
A matéria é toda referente à tirania e
ao abuso de poder do Governador Fanfarrão Minésio,
versando a sua falta de decoro, venalidade, prepotência
e, sobretudo, desrespeito à lei. Afirmam alguns que o
poema circulava largamente em Vila Rica em cópias manuscritas.
Critilo (Tomás Antônio Gonzaga) aplica-se de tal
modo na sátira, que a beleza mal o preocupa. Os versos
brancos concentram-se no ataque. Sente-se um poeta capaz de
escrever no tom familiar que caracteriza o realismo dos neoclássicos,
com certa inclinação para a pintura da vida doméstica.
Para Critilo, o arbitrário Governador constituía,
de certo modo, atentado ao equilíbrio natural da sociedade.
Entretanto, não se nota nas Cartas nenhuma rebeldia
contra os alicerces do sistema colonial, nem mesmo uma revolta
contra o colonizador; apenas se critica a má administração
do governador Cunha Menezes. Seu significado político,
todavia, permanece. Literariamente, é a obra satírica
mais importante do século XVIII brasileiro e continua
sendo o índice de uma época.
Sendo anônimo o poema e tendo permanecido inédito
até 1845, houve dúvida quanto à sua autoria,
embora a tradição mais antiga apontasse Gonzaga
sem hesitação. Falou-se depois em Cláudio,
em Alvarenga Peixoto, em colaboração etc. Estudos
empreendidos neste século, culminando pelos de Rodrigues
Lapa, vieram dar prati¬camente a certeza da atribuição
a Gonzaga.
É tida como uma das mais curiosas sátiras de
todos os tempos em Literatura Brasileira (junto com Antônio
Chimango). Quem assina essas cartas é um certo Critilo,
que escreve a um amigo, Doroteu. O contexto também era
diverso, já que o clima de opressão e a tensão
política deveriam se asilar no apócrifo.
As Cartas têm em Cunha Menezes (no texto, batizado com
o singelo nome de Fanfarrão Minésio) o seu protagonista.
Além do viés satírico, a obra constitui
um interessante quadro dos costumes daquela época e um
registro precioso do que era a corrupção no Brasil
já desde os tempos da Colônia. Critilo, por sua
vez, escreve do Chile.
Carta 1ª (fragmentos)
Não cuides, Doroteu, que vou contar-te
por verdadeira história uma novela
da classe das patranhas, que nos contam
verbosos navegantes, que já deram
ao globo deste mundo volta inteira.
Uma velha madrasta me persiga,
uma mulher zelosa me atormente
e tenha um bando de gatunos filhos,
que um chavo não me deixem, se este chefe
não fez ainda mais do que eu refiro.
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Tem pesado semblante, a cor é baça,
o corpo de estatura um tanto esbelta,
feições compridas e olhadura feia;
tem grossas sobrancelhas, testa curta,
nariz direito e grande, fala pouco
em rouco, baixo som de mau falsete;
sem ser velho, já tem cabelo ruço,
e cobre este defeito e fria calva
à força de polvilho que lhe deita.
Ainda me parece que o estou vendo
no gordo rocinante escarranchado,
as longas calças pelo embigo atadas,
amarelo colete, e sobre tudo
vestida uma vermelha e justa farda.
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