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DOM CASMURRO
por Marisa Lajolo, em "Literatura comentada",
da Abril Editora:
Dom Casmurro foi publicado em 1900 e é
um dos romance mais conhecidos de Machado. Narra em primeira
pessoa a estória de Bentinho que, por circunstância
várias, vai se fechando em si mesmo e passa a ser conhecido
como Dom Casmurro. Sua estória é a seguinte: Órfão
de pai, criado com desvelo pela mãe (D. Glória),
protegido do mundo pelo círculo doméstico e familiar
(tia Justina, tio Cosme, José Dias), Bentinho é
destinado à vida sacerdotal, em cumprimento a uma antiga
promessa de sua mãe.
A vida do seminário, no entanto, não o atrai,
já o namoro com Capitu, filha dos vizinhos. Apesar de
comprometido pela promessa, também D. Glóri a
sofre com a idéia de separar-se do filho único,
interno no seminário. Por expediente de José Dias,
o agregado da família, Bentinho abandona o seminário
e, em seu lugar, ordena-se um escravo.
Correm os anos e com eles o amor de Bentinho e Capitu. Entre
o namoro e o casamento, Bentinho se forma em Direito e estreita
a sua amizade com um ex-colega de seminário, Escobar,
que acaba se casando com Sancha, amiga de Capitu.
Do casamento de Bentinho e Capitu nasce Ezequiel. Escobar morre
e, durante seu enterro, Bentinho julga estranha a forma qual
Capitu contempla o cadáver. A partir daí, os ciúmes
vão aumentando e precipita-se a crise. Á medida
que cresce, Ezequiel se torna cada vez mais parecido com Escobar.
Bentinho muito ciumento, chega a planejar o assassinato da esposa
e do filho, seguido pelo seu suicídio, mas não
tem coragem. A tragédia dilui-se na separação
do casal.
Capitu viaja com o filho para a Europa, onde morre anos depois.
Ezequiel, já mocó, volta ao Brasil para visitar
o pai, que apenas constata a semelhança entre e antigo
colega de seminário. Ezequiel volta a viajar e morre
no estrangeiro. Bentinho, cada vez mais fechado em usas dúvidas,
passa a ser chamado de casmurro pelos amigos e vizinhos e põe-se
a escrever de sua vida (o romance).
ORGANIZAÇÃO / ESTRUTURA
1) Dom Casmurro é narrado em primeira pessoa pelo protagonista
masculino que dá nome ao romance, já velho e solitário,
desiludido e amargurado pela casmurrice, conforme lhe está
no apelido. A visão, pois, que temos dos fatos é
perpassada da sua ótica subjetiva e unilateral: "tudo
que sabemos do seu passado, de seus amores, de Capitu, só
o conhecemos do seu ângulo" - observa o Prof. Delson
Gonçalves Ferreira em estudo sobre Dom Casmurro. Em conseqüência
disso, paira dúvida sobre o adultério de Capitu
- dúvida que não se tem dissipado ao longo dos
anos.
2) O romance , como já observamos, é construído
a partir de um flash-back, por um cinqüentão solitário
e casmurro, "à la recherche de temps perdu"
("à procura do tempo perdido"), o qual procura
"atar as duas pontas da vida" ( infância e velhice).
Perpassa. Pois, o romance uma atmosfera memorialista, dando
a impressão de autobiografia, a qual, com o se sabe,
não tem nada a ver com Machado de Assis.
3) O título do livro ("Dom Casmurro") reflete
uma das características mais marcantes do protagonista
masculino no crepúsculo da existência: a visão
amarga e doída de quem foi traído e machucado
pela vida, e, em conseqüência disso vai-se isolando
e ensimesmando. "Não consultes dicionários,
Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe
dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado
e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos
de fidalgo" (Cap. I).
4) O romance se compõe de 148 capítulos curtos,
com títulos bem precisos, que refletem o seu conteúdo.
A narrativa vai lenta até o capítulo XCVII, a
partir do qual se acelera, como declara o próprio narrador,
ao dar-se conta da sua lentidão: "Agora não
há mais que levá-la a grandes pernadas, capítulo
sobre capítulo, pouca emenda, pouca reflexão,
tudo em resumo. Já esta página vale por meses,
outras valerão por anos, e assim chegares ao final"
(Cap. XCVII).
5) Assim, pois, até o capítulo XCVII, quando o
narrador sai do seminário, "com pouco mais de dezessete
anos", focaliza-se, em câmera lenta, a infância
e a adolescência, dada necessidade do narrador traçar
o perfil dos protagonistas da estória (Bentinho e Capitu),
revelando, desde as entranhas, o caráter e as tendências
de cada um: afinal, o adulto sempre se assenta no pilar da infância,
como insinua Dom Casmurro, no final da narrativa, ao referir-se
a Capitu: "Se te lembras bem da Capitu menina, hás
de reconhecer que uma estava dentro da outra, como a fruta dentro
da casca" (Cap. CXLVIII).
6) Quanto ao lugar em que decorre a ação, trata-se
do Rio de Janeiro da época do Império: há
inúmeras referências a lugares, ruas, bairros,
praças, teatros, salões de baile que evocam essa
cidade imperial. Por outro lado, há também ligeiras
referências a São Paulo, onde foi estudar Direito
o ex-seminarista Bentinho, e também à Europa onde
morre Capitu, e mesmo aos lugares sagrados, onde morre Ezequiel
(Jerusalém).
7) Cronologicamente falando, a narrativa decorre durante o segundo
Império, detendo-se mais o autor na inicia pela razão
exposta no item 5. Contudo, construído sob a forma de
flash-back; “o que domina no livro não é
esse tempo cronológico; é o psicológico,
que se passa dentro das personagens, dentro da própria
vida”, observa o Prof. Delson Gonçalves. Debruçado
sobre a reconstrução da longínqua inicia
de outrora, o solitário e magoado Dom Casmurro vai reconstituindo
o “tempo perdido” de sua existência, filtrando
os fatos sob sua ótica de cinqüentão amargurado,
revivendo a vida subjacente, que jaz nas suas entranhas.
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