|
Boca
De Ouro
A obra tem duas fases distintas, embora complementares.
Primeiro existe a fase mítica, que trabalha predominantemente
com realidades arquetípicas, sem qualquer compromisso
substancial com o mundo objetivo.
Na segunda fase, balzaquiana, Nelson Rodrigues faz com que seus
personagens desçam do Olimpo e se plantem no chão
do mundo, no chão do subúrbio carioca, de onde
passam a brotar com um vigor e uma autenticidade admiráveis.
Em Boca de Ouro, esse casamento entre o particular e o universal,
entre o subúrbio, no que dele tem de mais peculiar, e
a simbologia arcaica do inconsciente, no que esta possui de
mais genérico, se faz de maneira psicológica e
artisticamente perfeita. É claro que tal inserção
de planos pode confundir e desorientar a crítica, mesmo
avisada e experiente. Esta desunidade é, porém,
aparente e não essencial. Ela decorre da perplexidade
do espectador ante o encontro entre o mito e o subúrbio,
e das surpresas e desdobramentos que surgem deste conúbio.
Boca de Ouro, sendo um autêntico rei do jogo do bicho,
brasileiríssimo e suburbano, é, ao mesmo tempo,
o fulvo felino imemorial que nos habita a todos, o leão
de Judo onipotente que cada um alimenta nas testas de sua fantasia
profunda, todo músculo e toda força, além
da morte, além do risco, além da solidão
e do abandono.
Nelson Rodrigues, na estrutura de sua peca, mostra, sem qualquer
dúvida , a sua intenção de universalizar
certas realidades inconsciente fundamentais, que Boca de Ouro
representa. Tanto é assim que o personagem só
aparece, como presença autônoma, na primeira cena,
no dentista, quando manda arrancar todos os dentes sadios para
substituí-los por uma dentadura de ouro. Neste gesto
o personagem define, desde logo, com um vigor absoluto, o cerne
de seu projeto existencial. Boca de Ouro escolhe aí o
caminho da potência onipotente da força desmesurada
e agressiva através da qual espera agarrar a invulnerabilidade
a que aspira. Os dentes naturais são perecíveis,
envelhecem e morrem. Seu poder de domínio triturador
está limitado pelas travas insuperáveis da condição
humana. Boca de Ouro, ao optar pela dentadura que lhe deu o
nome, busca transfigurar-se e imortalizar-se pelo caminho da
agressão primitiva, aquém ou além do bem
e do mal. Nesta medida, coroado rei por si mesmo(corado nos
dentes), sentado no trono de seu despotismo sem limite, o personagem
transcende o subúrbio e se configura como herói
da espécie, violento e terrível.
Em virtude desta dimensão mítica é que
Boca de Ouro, como ser autônomo, individual e individuado,
já não mais aparece na peça. Ele existirá
pelos olhos dos outros, terá as múltiplas faces
que os outros lhe atribuem, será, além de si próprio,
a encarnação das fantasias de onipotência
que os outros, através dele, buscam exprimir. Esta é
a linha psicológica pela qual a peça ganha unidade
e profundidade, uma vez que os personagens: D.Guigui, Agenor,
os jornalistas, a comparsaria que faz fila no necrotério,
o locutor de rádio_ ao falar de Boca de Ouro, falam também
de si e, ao criar a sua imagem mítica, se revelam nos
seus sonhos de poder e despotismo. Os demais personagens ligados
ao Boca de Ouro, e trazidos `a cena pela narrativa de D. Guigui
ao repórter, participam deste mesmo, desdobramento de
planos psicológicos e, sendo vivos e autônomos,
também representam focos de clarificação
que iluminam o herói da peça e são por
ele iluminado, desvendando, por último, a realidade interna
da narradora que os faz viver.
Boca de Ouro, nascido de mãe pândega, parido num
reservado de gafieira, tendo perdido o paraíso uterino
para defrontar-se com uma realidade hostil e inóspita,
sentiu-se condenado `a condição de excremento.
Seu primeiro berço foi a pia de gafieira, onde a mãe,
aberta a torneira, o abandonou num batismo cruel e pagão.
Esta é a situação simbólica pela
qual o autor, com um vigor de mestre, expressa o exílio
e a angústia humana do nascimento, o traumatismo que
nos causa, a todos, o fato de sermos expulsos do Éden
e rojados ao mundo, para a aventura do medo, do risco e da morte.
Boca de Ouro, frente a esta angústia existencial básica,
escolheu o caminho da violência e do ressentimento para
superá-la. Ele, excremento da mãe, desprezando-se
na sua imensa inercidade de rejeitado, incapaz de curar-se desta
ferida inaugural, pretendeu a transmutação das
fezes em ouro, isto é, da sua própria humilhação
e fraqueza em força e potência. Esta alquimia sublimatória
ele a quis realizar através da violência, da embriaguez
do poder destrutivo pelo qual chegaria `a condição
de deus pagão, cego no seu furor, belo e inviolável
na pujança de sua fúria desencadeada. Ao útero
materno mau, que o expulsou e o lançou na abjeção,
preferiu ele, na sua fantasia onipotente, o caixão de
ouro, o novo útero eterno e incorruptível onde,
sem morrer, repousaria.
Acabou mal esse Boca de Ouro, esse belo sinistro, terrível
e ingênuo herói, tão grande e tão
miserável na sua revolta contra a condição
humana. Ele que, pela violência homicida, pretendeu realizar
o velho sonho da alquimia, de transmutação dos
elementos, transformando-se a si próprio em ouro imperecível,
acabou lançado `a sarjeta, com a cabeça no ralo,
crivado de punhaladas, reduzido `a matéria de que tinha
horror.
Depois de morto, roubaram-lhe a dentadura. Eis o nosso rei destronado,
devolvido `a sua solidão, fraco e pobre como o mais fraco
e mais pobre dos seres.
|