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O Santo
e a Porca
Eudoro Vicente manda uma carta a Eurico dizendo que lhe pedirá
o seu bem mais precioso.
Na casa do comerciante, moram a filha Margarida, a irmã
de Eurico, Benona, a empregada Caroba e, já há
algum tempo, Dodó, filho do rico fazendeiro Eudoro. Dodó
vive disfarçado, finge-se de torto, deformado e sovina.
Assim conquistou Eurico, que lhe atribuiu a função
de de guardião da filha, quem Dodó namora às
escondidas.
O desenrolar dos fatos se desencadeira com a carta enviada por
Pinhão, empregado de Eudoro e noive de Caroba, empregada
de Euricão. Eudoro informa que fará uma visita
para pedir esse bem tão precioso a Eurico, que fica apreensivo,
pois pensa que lhe pedirá dinheiro emprestado. Eurico
insiste em de dizer pobre, repetindo as frases: "Ai a crise,
ai a carestia".
Na sala da casa de Eurico, onde as cenas se desenrolam, há
uma estátua de Santo Antônio, de quem Eurico é
devoto, e uma antiga porca de madeira, a quem ele dedica especial
atenção e que logo o público saberá
que esconde maços de dinheiro.
Caroba, muito esperta, percebe que Eudoro pedirá margarida
em casamento, é assim que ela entende o bem mais precioso
de Eurico que o fazendeiro, pai de Dodó, quer saber.
Então ela arma um circo para alcançar alguns objetivos:
ganhar algum dinheiro, pois quer casar com Pinhão, casar
Dodó e Margarida além de Eudoro e Benona, que
já tinham sido noivos há muitos anos. Eudoro,
viúvo, querias Margarida, mocinha; Benona, solteirona,
queria Eudoro, fazendeiro; Margarida queria Dodó, pois
o amava; Caroba e Pinhão se queriam; Euricão queria
a porca, ou será que queria a proteção
de Santo Antônio para a porca?
Caroba negocia uma comissão com Eurico para ajudá-lo
a tirar vinte contos de Eudoro Vicente, antes que este peça
dinheiro a Eurico. Acertam-se. Aí Caroba convence Benona
que Eudoro virá pedi-la em casamento e se dispõe
a ajudá-la. São então tramas de Caroba:
fazer Eurico pedir vinte contos a Eudoro para o casamento (na
realidade, para um jantar); convencer Benona de que Eudoro viria
pedi-la em casamento; fazer Eudoro acreditar que pede Margarida;
fazer Eurico crer que Eudoro pede Benona; armar um encontro
entre Eudoro e Margarida na penumbra; ficar no lugar de Margarida,
com o vestido dela.
Conseqüências das armações de Caroba:
Dodó sente ciúme de Margarida, pois pensa que
ela irá encontrar-se com Eudoro; Pinhão sente
ciúme de Caroba quando sabe que ela irá em lugar
de Margarida; Euricão desconfia que querem roubar sua
porca recheada, pois ouve falarem em devorar porca e pensa ser
a sua, quando é a do jantar que se encomendou para receber
Eudoro; Pinhão desconfia de Eurico e o observa, porque
este age estranhamente.
Na hora do encontro entre Margarida e Eudoro, Caroba tranca
Margarida no quarto, manda Benona permanecer também no
seu e vai, vestida de Margarida, receber Eudoro. Dodó
vê Caroba e pensa ver Margarida, pois está com
o vestido dela. Para não ter que se explicar, Caroba
o empurra e tranca no quarto com Margarida. Caroba então
veste roupa de Benona e esta a de Margarida. Caroba então
recebe Eudoro vestida de Benona. Ele é enganado: pensa
estar conversando com a antiga noiva, que se insinua a ele,
na penumbra não percebe que é Caroba. Ela o leva
ao quarto de Benona e o tranca com a ex-noiva, por quem agora
já está novamente interessado.
Pinhão ao sair do esconderijo onde estivera observando
a cena, vê Caroba e pensa ser Benona e tenta seduzí-la.
Ela reage e bate em Pinhão e o manda esperar por Caroba,
que tira as roupas de Benona e diz que acompanhou toda a cena,
bate outra vez em Pinhão, mas na confusão começam
a se beijar. Aí destrancam as portas dos quartos de Margarida
e Dodó, Benona e Eudoro, e entram em outro.
Dodó e Margarida saem do quarto e pensam ter sido surpreendidos
por Eurico, que entra em casa dizendo estar perdido.Na verdade
Eurico havia saído para enterrar sua porca recheada dentro
do cemitério. A conversa entre Eurico e Dodó é
engraçada, pois ambos se enganam: Dodó fala de
Margarida, enquanto Eurico fala da porca que desapareceu. Eurico
pensa que o rapaz lhe roubou a porca, já que este o traiu.
No desespero, Eurico finalmente revela que a porca estava cheia
de dinheiro guardado há tantos anos.
Com os gritos da discussão, Pinhão e Caroba saem
do quarto. Depois Eudoro e Benona do seu. A cena é divertida:
são três casais que de repente estão juntos
e felizes ante Euricão lamentando a perda da porca. Graças
a Caroba os casais se entendem sem Euricão nem Eudoro
perceberem o engano de que foram vitimas. Margarida desconfiou
de Pinhão e afirmou que ele pegara a porca. Eurico lhe
salta no pescoço e Pinhão acaba contando, mas
exige vinte contos para dizer onde escondeu a porca, os vinte
contos que Eurico conseguiu emprestados de Eudoro com a ajuda
de Caroba. Com o vale do dinheiro na mão, mostra a porca
que estava na casa mesmo.
Então, Eudoro faz Eurico perceber que aquele dinheiro
era velho e havia perdido o valor. Eurico se desespera. Tentam
dissuadi-lo da importância do dinheiro, mas ele manda
todos embora e fica só, com a porca e o Santo, tentando
entender o que aconteceu, qual o sentido de tudo que houvera.
Resumo adapt. Do Site http://osantoeaporca.vilabol.uol.com.br/
Características da Obra de Sussuna:
Quando começamos a estudar a produção dos
autos de Ariano Suassuna, não podemos dissociar esta
análise das produções do escritor Gil Vicente.
Ambos possuem semelhanças concretas, principalmente,
com relação à:
1.construção das personagens - cada personagem
representa uma classe social - que é criticada - e, por
vezes, possui um nome que o identifica a função
que exerce na comunidade onde vive, ou apelidos cômicos,
como acontece com João Grilo, Chico, a mulher do padeiro,
todos do Auto da Compadecida; Gil Vicente identifica seus personagens
como mercadores, padres, pobres, etc., sempre numa alusão
às classes da hierarquização social da
Era Humanista ( marca o fim da Idade Média );
2.religiosidade - ambos os autores reforçam a manipulação
que o clero exerce sobre o povo mais simples, compactuando com
os interesses econômicos representados por coronéis,
bispos (Ariano Suassuna) e por nobres, ricos (Gil Vicente);
as figuras de diabos, anjos, Jesus e Nossa Senhora estarão
presentes nas obras dos escritores, com a devida evolução
de linguagem no caso dos textos de Suassuna - dentre essas a
figura que rouba a cena é a do diabo pela sua força
expressiva e sua posição de juiz das almas já
que enumera as falcatruas dos outros personagens (efetuando,
inclusive, uma rememoração da história
que está sendo contada).
3.crítica social - os períodos históricos
em que os autos são escritos apresentam características
semelhantes: grande desnivelamento social, fome, desmandos de
poderosos e, em se tratando das obras de Suassuna, há
o agravante dos fatores naturais que tornam a vida do sertanejo
muito difícil.
4.ironia - é a grande marca que identifica os autores
e é o grande recurso utilizado para elaborar a crítica.
Em Gil Vicente, há obras cuja ironia crítica serviu
de modelo para as gerações seguintes, como em
Auto da Lusitânia (e os personagens "Todo o mundo"
e "Ninguém"). E em Ariano Suassuna, o mesmo
será comprovado no reconhecido Auto da compadecida, mas
também em O santo e a porca e em Farsa da boa preguiça.
Comparação com Plauto
Na apresentação de sua peça O Santo e a
Porca (1957), Ariano Suassuna a sub-intitula de uma "Imitação
Nordestina de Plauto", referindo-se à Aululária,
do autor latino.
A palavra imitação, usada por Suassuna, nos remete
ao conceito aristotélico de mímesis, cujo significado
não representa apenas uma repetição à
semelhança de algo, uma cópia, mas a representação
de uma realidade, mais precisamente de uma revelação
da essência dessa realidade.
Essa essência está representada, nessas duas obras,
pela avareza humana.
Neste trabalho, pretendemos uma abordagem desse tema, sob o
aspecto de como o objeto depositário da avareza foi tratado
pelos dois autores: a panela, em Aululária; a porca,
na comédia de Suassuna.
Optamos pelo enfoque simbólico dessa proposta, visto
que a obra de Suassuna, que se declara uma imitação
da de Plauto, mantém uma distância de mais de dois
milênios da original e está contextualizada, tanto
geográfica como culturalmente, numa distância não
menor do que a temporal.
Nesse paralelo, destacamos a trajetória dos dois objetos
que constituem o eixo norteador de toda a ação
das duas peças.
Na comédia do autor latino (Plauto Titus Maccus - 250?-184?
a.C.), de influência grega e estilo tipicamente romano,
o velho avarento Euclião descobre na lareira de sua casa
uma panela cheia de moedas de ouro deixada por seu avô.
O casamento de sua filha com um velho rico é o motivo
que origina toda a ação da peça. Os recursos
utilizados por Plauto dão à comédia um
ritmo ágil e hilariante, cheio de ambigüidades e
desencontros. "O diálogo, como em todas as suas
peças, lembra a fala rápida da comédia
musical americana (e na verdade era representada com acompanhamento
musical)" (GASSNER, 1974, p.112).
Ariano Suassuna retoma o tema e situa-o no Nordeste. Seu protagonista
chama-se Euricão Árabe.
Na contracapa do livro de Suassuna (1984), Manuel Bandeira comenta
as duas obras:
Plauto é o mais linearmente clássico, na sua pintura
de um caráter de avarento; Suassuna é o mais complicado,
não só pela maior abundância de incidentes
na efabulação, como pela evidente intenção
de moralidade filosófica; (...) e os elementos nordestinos
da porca e seu protetor, o Santo (Santo Antônio) são
os grandes achados de Suassuna, e o que confere o timbre de
originalidade na volta ao velho tema.
Na seqüência das duas narrativas, tanto a panela
quanto a porca acompanham todo o ciclo de transformação
interior dos respectivos protagonistas, o que nos induz a uma
interpretação simbólica desse trajeto.
Tomamos como símbolos, na Aululária ou O Vaso
de Ouro, o Deus Lar, a lareira, o templo da Fidelidade, o bosque
de Silvano e o objeto representativo da avareza, a panela (vaso).
Em O Santo e a Porca, temos como correspondentes o Santo Antônio,
a sala, o porão, o cemitério e o objeto da avareza,
a porca de madeira.
Considerando os costumes e as crenças inerentes às
duas épocas retratadas pelos autores, cabe primeiramente
um destaque à parte mística e mítica das
duas peças.
Para os romanos, os Lares eram deuses domésticos, protetores
de cada família e de cada casa, cultuados no lararium,
uma espécie de oratório. Tinham um templo, no
Campo de Marte, onde eram feitos os sacrifícios e as
oferendas. Interessante destacar que, quando se tratava de sacrifício
público, a vítima ofertada era o porco (SPALDING,1982).
Euclião, até o momento da perda de sua panela
com o tesouro, invoca o deus Hércules, identificado com
o deus grego Héracles, símbolo da força
combativa. Os romanos também o tinham como divindade
protetora dos bens materiais e dos bons lucros nos negócios.
Após a perda de seu tesouro, Euclião invoca Júpiter,
que simboliza tanto a expansão material como o enriquecimento
vital.
Santo Antônio, por sua vez, é um santo de grande
devoção popular nos países de origem latina.
No Nordeste, esse santo é grandemente festejado durante
as chamadas festas juninas. É tido, também, como
"santo casamenteiro".
Euricão Árabe, o velho avarento de O Santo e a
Porca, invoca o santo, questiona-o, do início ao fim
de sua aventura. Embora, em alguns momentos, oscile entre o
santo e a porca, mantém-se fiel ao santo de sua devoção.
Esta oscilação poderia representar o movimento
entre espiritualidade e materialidade inerentes ao ser humano.
Euclião, no entanto, é a imagem da personificação
da avareza. Apela para o deus ou divindade que melhor atender
à necessidade de determinado momento.
Nesse contexto de crenças e costumes, a avareza das duas
personagens está representada em dois objetos: a panela
(vaso) com o ouro de Euclião, escondida na lareira, e
a "porca de madeira, velha e feia (...) com pacotes de
dinheiro" (SUASSUNA, 1984, p.13), depositada na sala de
Euricão sob a imagem de Santo Antônio.
A lareira expressa o simbolismo da vida em comum, do centro
da casa. Seu calor e sua luz aproximam as pessoas, é
o centro da vida. Assim como a sala, tem o significado de "um
santuário, no qual se pede a proteção de
Deus, celebra-se o seu culto e guardam-se as imagens sagradas"
(CHEVALIER, GHEERBRANT, 1994, p.536).
A panela e a porca de madeira eram guardadas, respectivamente,
nesses dois ambientes domésticos - lareira e sala -;
portanto, equivalentes.
O vaso com as moedas de ouro (a panela de Euclião) representa
"um reservatório de vida (...), o segredo da vida
espiritual, o símbolo de uma força secreta".
Se o vaso for "aberto em cima, indica uma receptividade
às influências celestes" (CHEVALIER, GHEERBRANT,
1994, p.932).
Por sua vez, a moeda traz uma imagem ambivalente: a de valor
e a de alteração da verdade.
A porca, juntamente com o porco, são considerados símbolos
universais. Este representa a impureza, a voracidade, as tendências
obscuras, enquanto que a porca, divinizada desde os egípcios,
simboliza a abundância e o princípio feminino de
reprodução, de criação da vida.
Todo o sentido da vida de Euclião e da de Euricão,
simbolizado na panela guardada na lareira e na porca de madeira
guardada na sala ao pé do santo, foi ameaçado
por um acontecimento inesperado: o casamento das filhas. É
o início do processo de vivência da perda:
Euricão: Ai minha porquinha adorada! (...) querem levar
meu sangue, minha carne meu pão de cada dia, a segurança
de minha velhice, a tranqüilidade de minhas noites, a depositária
de meu amor! (SUASSUNA, 1984, p.33-34)
Diante da ameaça, Euclião esconde seu tesouro
no templo da Fidelidade, e Euricão, numa grande cova
("socavão"), no porão de sua casa.
No plano simbólico, o templo e a cova sintetizam o lugar
dos segredos, a busca ao desconhecido. Para os romanos, em particular,
o templo era de grande importância. Lá, eles veneravam
seus deuses, acorriam para pedir graças e proteção,
em troca de sacrifícios e oferendas Era, pois, o reflexo
do mundo divino e de seus mistérios.
Impulsionados pela ameaça da perda de seus bens, cultivados
durante toda a vida, Euclião e Euricão buscam
novo esconderijo para seus tesouros. O primeiro esconde-o no
bosque de Silvano; o segundo, no cemitério da igreja.
Silvano, para os romanos, era um deus campestre de significação
ambígua: protegia a agricultura e presidia às
florestas (silva, "floresta") e, ao mesmo tempo, era
uma "espécie de bicho-papão" que causava
medo às crianças.
Além de simbolizar o inconsciente, a floresta carrega
o significado do vínculo que as árvores mantêm
entre a terra (raízes) e o céu (copa).
Euricão esconde sua porca no cemitério da igreja,
num socavão entre o túmulo de sua mulher e o muro.
O socavão evoca o simbolismo da abertura para o desconhecido,
no sentido do imanente ao transcendente; o túmulo, associado
à morte, é o lugar da metamorfose, do renascimento,
ou das trevas; o muro, também de significado ambíguo,
simboliza a separação e a defesa.
Podemos sintetizar essa etapa da trajetória dos avarentos
como de conflito existencial diante da perda, em direção
a uma nova visão de mundo e renovação de
valores.
Euclião agradece aos deuses, despede-se alegremente de
sua panela e a dá de presente aos noivos.
Euricão, diante da constatação da realidade
(seu dinheiro não tinha mais nenhum valor), sente-se
traído pela vida. Melancolicamente, reconhece: "Um
golpe do acaso abriu meus olhos (...). Que quer dizer isso,
Santo Antônio? Será que só você tem
a resposta?" (SUASSUNA, 1984, p.82).
Na comparação simbólica das duas comédias,
vimos que os elementos representativos da avareza (a panela
e a porca) podem ser associados às etapas marcantes da
narrativa.
O primeiro momento (a panela e a porca; o Deus Lar e Santo Antônio)
podemos caracterizar como o do potencial latente e inerente
à natureza humana: o material e o espiritual. O poder
de acumulação e a visão desses valores
são representados, em Euclião e Euricão,
pela avareza.
O segundo momento, podemos caracterizar como o do conflito e
do início da transformação desses valores
(o templo da Fidelidade e o porão): a busca ao desconhecido,
ou seja, um momento de interiorização e reflexão
das personagens, sobre os valores até então tidos
como sólidos e permanentes.
O terceiro momento, finalmente, seria o da constatação
da perda. E, aqui, haveria duas possibilidades de escolha: a
da evolução ou a da involução, simbolizada
pela ambigüidade do "bosque de Silvano" e a do
"cemitério da igreja".
A escolha de Euclião e de Euricão foi a da transformação
no sentido evolutivo e de discernimento de que os bens materiais
são um meio e não um fim. Diríamos que
foi uma escolha do caminho ascendente entre a terra e o céu,
entre o transitório e o permanente.
A avareza dos protagonistas nos remete, em contrapartida, a
duas outras personagens, também idosas (Megadoro, na
Aululária, e Eudoro, em O Santo e a Porca), que não
apresentam tal característica, sendo, portanto, opostas
a Euclião e Euricão.
Concluindo, lembramos as palavras de Cícero sobre os
defeitos comumente atribuídos à velhice. Diz o
orador latino que: são defeitos dos costumes, não
da velhice. (...) Não compreendo o que a avareza do ancião
quer para si mesmo. Há algo de mais absurdo que aumentar
as provisões de viagem à medida que menos caminho
resta? (CÍCERO, 1980, p.81).
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