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SENHORA
Aurélia Camargo, moça pobre,
torna-se rica graças à herança do avô,
recebida aos l8 anos, quando é apresentada à sociedade
fluminense. Encanta a todos com sua esplendorosa beleza. Órfã,
tem em sua companhia uma parenta viúva, D. Firmina Mascarenhas,
mas é Aurélia quem governa a casa como bem entende.
A velha senhora é uma espécie de "mãe
de encomenda", forma de não chocar aqueles que se
opõem à emancipação feminina.
Sua beleza desperta o interesse de muitos rapazes,
sabendo, sagazmente, os riscos que corre. Revoltando-se, às
vezes, contra sua riqueza por reconhecer nela um dos motivos
para tantos admiradores. Por isso, a cada um atribui um valor
em contos de réis, fato que os rapazes conhecem e os
diverte diante de tanta franqueza da moça.
Aurélia tem como tutor o irmão
de sua mãe, o senhor Lemos que, vez por outra, é
convocado para resolver problemas sem importância. Numa
determinada manhã é chamado para discutir sobre
o casamento da jovem. Surpreendentemente, ela lhe apresenta
um negócio a ser entabulado para a obtenção
do consentimento do futuro marido. Faz referência a Manuel
Tavares do Amaral, empregado da alfândega, que ajustou
o casamento da filha Adelaide por um dote de trinta contos com
um rapaz recém-chegado ao Rio de Janeiro.
Solicita ao senhor Lemos que a auxilie a desmanchar
esse casamento, indicando que a moça deve se casar com
o Dr Torquato Ribeiro, seu verdadeiro amor, repelido por ser
pobre. Pede ao tutor para dar 50 contos de réis, retirados
da herança de Aurélia, como dote a Ribeiro, porque
deseja se casar com o moço prometido a Adelaide. O tio
deve procurar o moço escolhido e lhe propor 100 contos
de réis e casamento com separação de bens,
mantendo absoluto segredo sobre quem faz a proposta.
O preferido é Fernando Rodrigues de
Seixas, rapaz de poucos recursos que conheceu na infância.
Vive com a mãe e duas irmãs que o veneram. Órfão
aos 18 anos, abandona o terceiro ano de Direito em São
Paulo, ocupando o cargo de jornalista, tendo certo sucesso na
imprensa fluminense. Em sociedade apresenta-se como moço
rico, em casa, leva vida simples.
Procurado pelo velho, o rapaz de pronto se
nega a aceitar o acordo, entretanto, dias mais tarde, vai encontrá-lo
para aceitar a proposta, desde que lhe sejam adiantados vinte
contos de réis, sem dizer em que os aplicará.
O adiantamento é aceito. Seixas se decide pelo acordo
porque gastou as economias maternas e agora tem de dar à
irmã um dote para seu casamento. Sente-se ainda mais
angustiado, quando descobre que Aurélia sabe sobre a
mudança do casamento com Adelaide. Triste, humilhado,
mas temendo, acima de tudo, a pobreza, decide-se, confirmando
seu propósito com Lemos.
Após receber os vinte contos de réis,
Seixas é apresentado à futura noiva. Pelo trajeto,
vai sufocado pela humilhação a que se submete,
contudo Lemos avisa que a moça nada sabe sobre o acordo.
Dias mais tarde, oficializa o pedido de casamento, prontamente,
aceito por Aurélia Camargo. A sociedade fluminense fica
assombrada com a notícia, não podendo crer que
com tantos admiradores ricos a escolha tenha recaído
sobre um marido sem fortuna. A celebração é
modesta com poucos convidados e os noivos se sentem felizes.
Porém, quando ficam a sós, a moça se revela
de forma cruel, mostrando-lhe desprezo e mencionando o acordo
de cem contos de réis.
A mãe de Aurélia, Emília
se casara com um médico pobre, Pedro Camargo, filho natural
de rico fazendeiro, Lourenço de Sousa Camargo, que manda
buscar o filho sem reconhecer a união. Este parte para
a fazenda paterna, mas não tendo coragem para enfrentá-lo,
envia cartas amorosas à esposa e dinheiro para seu sustento.
Após um ano de separação, o casal se reencontra,
nascendo o primeiro filho, Emílio, que o pai só
conhece aos 2 meses de idade. Passam a viver algumas semanas
juntos e outras separados, temendo que o velho descubra tudo
e não mais os ajude. Nasce a segunda filha, Aurélia.
Emília nada pode revelar sobre seu casamento
e, por isso, leva uma vida suspeita e obscura. Apesar de tudo,
Pedro sustenta a família e educa bem os filhos. Após
doze anos de convivência com a esposa e 36 anos de idade,
Pedro sofre um golpe cruel. O pai lhe apresenta uma noiva de
15 anos, filha de rico fazendeiro. O moço se esconde
em um rancho e aí morre de febre cerebral, deixando 3
contos de réis a um tropeiro para ser levado a Emília,
sem mencionar a dor pela qual está passando. Assim, faz
o homem e Emília perde para sempre a alegria de viver.
Aurélia, na infância, leva vida
modesta em companhia da mãe e do irmão, criatura
fraca que é sempre ajudada, em seu trabalho de caixeiro,
pela moça, sobrecarregada de tarefas. Morto o irmão,
a mãe começa a preocupar-se com o destino da filha,
falando-lhe constantemente sobre a necessidade de se casar e
de se colocar à janela, pois bonita como é, logo
arranjaria pretendentes. Apesar de desgostosa, Aurélia
atende aos apelos. O tio Lemos logo corre à janela, agindo
como candidato, mas a moça quer reatar laços com
a família materna. O tio deixa-lhe um bilhete galanteador
e a menina rompe de vez a amizade.
O próximo a se candidatar é Fernando
Seixas que, conquistando a atenção de Aurélia,
passa a freqüentar-lhe a casa, sentindo-se constrangido
em namorar moça tão pobre. Há, ainda, Eduardo
Abreu, rapaz rico e de boa família que encantado com
a beleza da menina, pede sua mão em casamento, mas Aurélia
ama Seixas. A mãe resolve perguntar ao eleito sobre suas
intenções em relação à filha,
mas sabendo do interesse de Abreu pela garota, Fernando prefere
perdê-la a fazê-la sofrer com sua pobreza, mas sabendo
da recusa de Aurélia, volta e a pede em casamento.
O senhor Lemos resolve interferir nos acontecimentos
e ao encontrar o pai de Adelaide Amaral lhe fala sobre as vantagens
do casamento da moça, já prometida a outro, com
Seixas. O pai não gosta do pretendente da filha, Dr Torquato
Ribeiro, porque pobre, não tem muito futuro pela frente.
Passa a se interessar por Seixas e por isso o apresenta em casa.
O rapaz começa a calcular as vantagens do casamento com
Adelaide e, por fim, quando o chefe da casa lhe oferece o dote
de 30 contos de réis, o aceita imediatamente. Aurélia
recebe uma carta anônima dizendo que Fernando a trocou
pelo dote de 30 contos de réis.
A moça fica infeliz, mas, por outro
lado, reencontra o avô, que decidira reconhecer mãe
e filha. Desafortunadamente, tanto a mãe quanto o avô
logo falecem. Um comerciante visita Aurélia e lhe traz
o testamento de Lourenço de Sousa Camargo, reconhecendo-a
como herdeira universal, lhe apresentando uma lista de seus
bens e explicando sobre os negócios pendentes. Os parentes,
que jamais se aproximaram dela, tão logo sabem sobre
a herança, correm para vê-la, inclusive o tio Lemos,
munido de uma nomeação para ser seu tutor. Mas
Aurélia sabe muito bem conduzir os negócios, sobretudo
graças ao aprendizado adquirido com o trabalho do irmão.
A menina desamparada passa a morar com a parenta afastada, D.Firmina.
Aurélia pensa em recusar a tutela, mas
logo acha interessante ter um tutor que domina. Aceita-o sob
a condição de jamais viver com a família
que tanto desprezara a mãe. O casamento com Fernando
Seixas é acertado pelos 100 contos de réis, revelados
por ela na noite de núpcias, quando expõe todo
seu desgosto para com o comportamento anterior do rapaz. Diante
da fúria da noiva, afirma não amá-la, só
se interessando pelo dote e, portanto, está pronto para
atender suas ordens. Aflita, angustiada e surpresa, ordena que
ele se retire. Passam a viver sob a aparência de casal
feliz, mas se martirizam com ironias e sarcasmos, levando vidas
separadas quando estão longe do convívio social.
Passado alguns meses, Fernando fica sabendo
que tem direito a 20 contos de réis, resultantes de um
negócio feito quando solteiro. Pede um encontro reservado
com a esposa e lhe restitui com juros os 100 contos de réis,
contando-lhe sobre as circunstâncias que o levaram a agir
assim. Aurélia declara seu amor, diz que o perdoa, pede
que ele a ame e como prova de que não o engana, mostra-lhe
seu testamento, passando-lhe tudo o que tem. Por fim, se beijam
e se dão por felizes.
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