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Havia tempos Gilberto Freyre procurava escrever sobre o ser brasileiro.
Pressões políticas e familiares o levaram, entre 1930
e 1932, a viver o que chamou de "a aventura do exílio".
Partiu para a Bahia e pesquisou as coleções do Museu Afro-Brasileiro
Nina Rodrigues e a arte das negras quituteiras na decoração
de bolos e tabuleiros. Observou que a culinária baiana era neta
da velha cozinha das casas-grandes.
Depois da Bahia partiu para a África e Portugal. Iniciou em Lisboa
as pesquisas e estudos que sedimentariam o livro Casa-Grande & Senzala.
De Portugal foi, como professor visitante, para a Universidade de Stanford,
nos Estados Unidos, onde viajou pelo Sul e pôde constatar a existência,
durante a colonização americana, do mesmo tipo de regime
patriarcal encontrado no nordeste brasileiro.
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"Eu
venho procurando redescobrir o Brasil. Eu sou rival de Pedro Álvares
Cabral. Pedro Álvares Cabral, a caminho das Índias,
desviou-se dessa rota, parece já baseado em estudos portugueses,
e identificou uma terra que ficou sendo conhecida como Brasil.
Mas essa terra não foi imediatamente auto-conhecida. Vinham
sendo acumulados estudos sobre ela... mas faltava um estudo convergente,
que além de ser histórico, geográfico, geológico,
fosse... um estudo social, psicológico, uma interpretação.
Creio que a primeira grande tentativa nesse sentido representou
um serviço de minha parte ao Brasil." |
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Durante o período de estudos na universidade americana, o escritor
elaborou uma linha de pensamento que diferenciava raça e cultura,
separava herança cultural de herança étnica; trabalhou
o conceito antropológico de cultura como o conjunto dos costumes,
hábitos e crenças do povo brasileiro.
"Gilberto Freyre diz que Franz Boas foi a figura de mestre que
nele ficou maior impressão, porque foi com Franz Boas que ele
aprendeu a distinguir raça de cultura, e nessa distinção
ele se baseou para escrever Casa-Grande & Senzala.
Agora, o conceito de antropologia de Freyre era muito mais amplo, ele
partiu para uma interpretação global do povo brasileiro.
É uma história ao mesmo tempo econômica, religiosa,
folclórica, sociológica."
Édson Nery da Fonseca, historiador (Olinda, PE)
| "Quando,
em 1532, se organizou econômica e civilmente a sociedade
brasileira, já foi depois de um século inteiro de
contato dos portugueses com os trópicos; de demonstrada
na Índia e na África sua aptidão para a vida
tropical. Formou-se na América tropical uma sociedade agrária
na estrutura, escravocrata na técnica de exploração
econômica, híbrida de índio, e mais tarde
de negro, na composição."
Trecho de Casa-Grande & Senzala. |
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Foi qui que chegou...dia 02 de março de 1535...um
português chamado
Duarte Coelho Pereira, viu essa bela vista e deu uma exclamação:Oh!
linda situação para se construir uma vila. Por isso que
a cidade se chama Olinda. Antigamente chamava Marino Caetês, habitada
pelos índios. Em Pernambuco e no Recôncavo baiano, a colonização
se desenvolvia à sombra das grandes plantações
de cana-de-açúcar e das casas-grandes de taipa ou de pedra
e cal, longe das cabanas de aventureiros e do extrativismo
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"A casa-grande
do engenho que o colonizador começou, ainda no século
XVI, a levantar no Brasil - grossas paredes de taipa ou de pedra
e cal, telhados caídos num máximo de proteção
contra o sol forte e as chuvas tropicais - não foi nenhuma
reprodução das casas portuguesas, mas expressão
nova do imperialismo português. A casa-grande é brasileirinha
da silva."
Trecho de Casa-Grande & Senzala. |
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Num processo de equilíbrio de antagonismos, o branco e o negro
se misturavam no interior da casa-grande e alteravam as relações
sociais e culturais, criando um novo modo de vida no século XVI.
As relações de poder, a vida doméstica e sexual,
os negócios e a religiosidade forjavam, no dia-a-dia, a base
da sociedade brasileira.
A casa-grande abrigava uma rotina comandada pelo senhor de engenho,
cuja estabilidade patriarcal estava apoiada no açúcar
e no escravo. O suor do negro ajudava a dar aos alicerces da casa-grande
sua consistência quase de fortaleza. Ela servia de cofre e de
cemitério. Sob seu teto viviam os filhos, o capelão e
as mulheres, que fundamentariam a colonização portuguesa
no Brasil. Embora diretamente associada ao engenho de cana e ao patriarcalismo
nortista, a casa-grande não era exclusiva dos senhores de engenho.
Podia ser encontrada na paisagem do sul do país, nas plantações
de café, como uma característica da cultura escravocrata
e latifundiária do Brasil.
O clima tropical e as formas agressivas de vida vegetal e animal impossibilitavam
a implantação de uma cultura agrícola, nos moldes
do costume europeu. O português teve então de mudar seus
hábitos alimentares. A mandioca substituía o trigo; no
lugar das verduras, o milho; e as frutas davam um colorido novo à
mesa do colonizador. Mas sua dieta ficava empobrecida, devido à
ausência de leite, ovos e carne, que só apareciam em datas
especiais, festas e comemorações. A terra foi usada para
o cultivo da cana em detrimento da pecuária e da cultura de alimentos,
o que provocou a apatia, a falta de robustez e a incapacidade para o
trabalho. Males geralmente atribuídos à mestiçagem.
Os portugueses não traziam para o Brasil nem separatismos político,
nem divergências religiosas, e não se preocupavam com a
pureza da raça. Assim o país se formava. E a unidade dessa
grande extensão territorial com profundas diferenças regionais,
garantida muitas vezes com o uso da força, aconteceu devido à
uniformidade da língua e da religião.
A
Igreja desenvolvia planos ambiciosos de evangelização
da América Latina, toda ocupada por países de tradição
católica. Nessa quase cruzada no Novo Mundo, os padres jesuítas
desempenhavam um papel importante na tentativa de implantar uma sociedade
estruturada com base na fé católica. Para catequizar os
índios, os jesuítas decidiram vesti-los e tirá-los
de seu hábitat. Já o senhor de engenho tentava escravizá-los.
Nos dois casos, o resultado era o extermínio e a fuga dos primitivos
habitantes da terra para o interior.
"Os portugueses,
além de menos ardentes na ortodoxia que os espanhóis e
menos estritos que os ingleses nos preconceitos de cor e de moral cristã,
vieram defrontar-se na América com uma das populações
mais rasteiras do continente... Uma cultura verde e incipiente, sem
o desenvolvimento nem a resistência das grandes semicivilizações
americanas, como os Incas e os Astecas."
Trecho de Casa-Grande & Senzala.
"O ambiente em que
começou a vida brasileira foi de grande intoxicação
sexual. O europeu saltava em terra escorregando em índia nua.
Os próprios padres da Companhia precisavam descer com cuidado,
se não atolavam o pé em carne."
Trecho de Casa-Grande & Senzala.
A sociedade brasileira, entre todas da América, era a que se
formava com maior troca de valores culturais. Havia um aproveitamento
de experiências dos indígenas pelos colonizadores. Mesmo
quando inimigo, o índio não provocava no branco uma reação
que levasse a uma política deliberada de extermínio, como
a que ocorria no México e Peru. A reação dos índios
ao domínio do colonizador era quase contemplativa. O português
usava o homem para o trabalho e a guerra, principalmente na conquista
de novos territórios, e a mulher para a geração
e formação da família. Esse contato provocava o
desequilíbrio das relações do índio com
o seu meio ambiente.
Eu
sou índio da tribo pataxó. Eu aprendi com meus pais a
fazer artesanato. A gente faz cocares..., a gente vive só disso,
de artesanato, a não ser no inverno, quando a gente tem que pescar
mucussu. Mucussu é peixe. A gente planta mandioca para fazer
cuiúna, feijão e arroz. A gente fala em pataxó:
jocana baixu significa mulher bonita e jocana baixa é mulher
feia."
Paturi, índio pataxó (Coroa Vermelha, BA)
| "A
grande presença índia no Brasil não foi a
do macho, foi a da fêmea. Esta foi uma presença decisiva,
a mulher índia tomou-se de amores pelo português,
talvez até por motivos fisiológicos, porque, segundo
pude apurar quando escrevi Casa Grande & Senzala, as sociedades
ameríndias ou índias, inclusive a brasileira, eram
sociedades que precisavam de festivais como que orgiásticos
para provocar nos homens, nos machos, desejos sexuais. O que há
de acentuar é o grande papel da índia fêmea
na formação brasileira, essa índia fêmea
não só através do relacionamento mencionado
sexual, mas através do papel social que ela começou
a desempenhar magnificamente, tornou-se uma figura capital na
formação brasileira." |
"Da cunhã
é que nos veio o melhor da cultura indígena. O asseio
pessoal. A higiene do corpo. O milho. O caju. O mingau. O brasileiro
de hoje, amante do banho e sempre de pente no bolso, o cabelo brilhante
de loção ou de óleo de coco, reflete a influência
de tão remotas avós. Ela nos deu, ainda, a rede em que
se embalaria o sono ou a volúpia do brasileiro."
Trecho de Casa-Grande & Senzala.
união do português com a índia
havia gerado os mamelucos que atuavam como bandeirantes e, junto com
os índios, formavam a muralha movediça da fronteira colonial.
O mameluco e o índio, que excediam o português em mobilidade,
atrevimento e ardor guerreiro; que defendiam o patrimônio do senhor
de engenho contra o ataque de piratas estrangeiros, nunca firmaram as
mãos na enxada. Os pés de nômades não se
fixavam na plantação da cana-de-açúcar.
"Essa arte é descendência dos índios, né!
Aí nós somos seguidores já dos índios. A
gente ficou fazendo as panelas de barro, que eu aprendi com meu pai.
Meu pai já trabalhava, aí eu fiquei trabalhando. Agora
meus filhos também trabalham na mesma arte."
Zé Galego, artesão (Caruaru, PE).
Dos costumes dos primitivos habitantes da terra eram as relações
sexuais e de família, a magia e a mítica que marcavam
a vida do colonizador. A poligamia e a sexualidade da índia iam
ao encontro da voracidade do português, ainda que a vida sexual
dos indígenas não se processasse tão à solta
quanto o relatado pelos viajantes que aqui estiveram. Para as tribos
mais primitivas, a união do macho com a fêmea tinha época;
o costume de oferecer mulheres aos hóspedes era prática
de hospitalidade, quase um ritual. A mulher nativa resgatava o sonho
da ninfa, que se banhava no rio e penteava os longos cabelos negros.
Uma imagem deixada pela invasão moura na Península Ibérica
e adormecida no inconsciente do português.
"Figura vaga, falta-lhe
o contorno ou a cor que a individualize entre os imperialistas modernos.
Assemelha-se nuns à do inglês; noutros, à do espanhol.
Um espanhol sem a flama guerreira nem a ortodoxia dramática do
conquistador do México e do Peru; um inglês sem as duras
linhas puritanas. O tipo do contemporizador. Nem idéias absolutas,
nem preconceitos inflexíveis. ...Um rio que vai correndo muito
calmo e de repente se precipita em quedas de água..."
Trecho de Casa-Grande & Senzala.
Os
portugueses davam uma contribuição criativa ao novo mundo
através da produção de açúcar. E
implantavam um sistema econômico que aprenderam com os mouros
durante a ocupação da Península Ibérica.
Os mouros, de grande tradição agrícola, introduziram
a laranjeira, o limoeiro e a tangerina e implantaram a tecnologia do
fabrico do açúcar em Portugal. O engenho mouro é
avô do engenho pernambucano.
Essa contribuição criativa é que diferenciava o
português do holandês e do francês, que para cá
traziam apenas aperfeiçoamentos tecnocráticos. O choque
das duas culturas, a européia e a ameríndia, no Brasil
colônia, se dava mais lentamente, não por meio da guerra,
mas nas relações entre homem e mulher, mestre e discípulo.
A Igreja ganhava no Brasil capelas simples dentro do complexo arquitetônico
da casa-grande. Lá morava o capelão, que dela tirava seu
sustento. E essa mesma Igreja, através dos jesuítas, partia
maciça e indiscriminadamente para a catequização
dos índios.
O animalismo e a magia impregnavam a vida dos índios: desde o
berço, quando a mãe entoava cantigas de ninar e, já
meninos, nas brincadeiras de imitar animais. Entre os jogos infantis
dos curumins, o jogo de cabeçada com a bola de borracha ficava
como contribuição da cultura indígena. Apesar de
crescerem livres de castigos corporais e de disciplina paterna, os meninos
estavam sempre em contato com rituais da vida primitiva. Na puberdade
eram levados para o baíto, a casa secreta dos homens, onde passavam
por provas de iniciação à fase adulta. Para os
padres da Companhia de Jesus, os índios acreditavam em tudo e
aprendiam e desaprendiam os ensinamentos rapidamente. Havia uma enorme
quantidade de aldeias espalhadas pela floresta, que falavam diferentes
línguas. Era preciso unificar as tribos para poder pregar a doutrina
católica. O menino indígena servia de intérprete
aos jesuítas, que aprendiam com ele as primeiras palavras em
tupi. Os padres puderam então escrever uma gramática,
unificando a língua dos Brasis. Estava criando o tupi-guarani.
Tanto a Igreja quanto o senhor de engenho fracassavam nos esforços
de enquadrar o índio no sistema de colonização
que iria criar a economia brasileira. Fora de seu hábitat natural,
o índio não se adaptava como escravo: morria de infecções,
fome e tristeza. Para suprir a deficiência da mão-de-obra
escrava, os senhores de engenho de Pernambuco e do Recôncavo baiano
começavam a importar negros caçados na África.
Agora, as escravas negras substituíam as cunhãs tanto
na cozinha como na cama do senhor. Na agricultura, a presença
do negro elevava a produção de açúcar e
o preço do produto no mercado internacional. O Brasil, esquecido
por quase duzentos anos, despertava finalmente o interesse do Reino
de Portugal.
Entre
os africanos que vinham para o Brasil, eram os negros muçulmanos,
de cultura superior não só à dos índios
como também à da maioria de colonos brancos, que aqui
chegavam e viviam quase sem nenhuma instrução, que para
escrever uma carta necessitava da ajuda do padre-mestre. O movimento
malê da Bahia, em 1835, foi considerado um desabafo da cultura
adiantada, que era oprimida por outra menos nobre. Contava-se que os
revoltosos sabiam ler e escrever em alfabeto desconhecido. Eram negros
que liam e escreviam em árabe.
"Pode-se juntar
à superioridade técnica e de cultura dos negros sua predisposição
como que biológica e psíquica para a vida nos trópicos.
Sua maior fertilidade nas regiões quentes. Seu gosto pelo sol.
Sua energia sempre fresca e nova quando em contato com a floresta tropical."
Trecho de Casa-Grande & Senzala.
O Brasil importava da África não somente
o animal de tração que fecundou os canaviais, mas também
técnicos para as minas, donas de casa para os colonos, criadores
de gado e comerciantes de panos e sabão.Os negros vindos das
áreas de cultura africana mais adiantada eram um elemento ativo,
criador e pode-se dizer nobre na colonização do Brasil,
degradados apenas pela condição de escravos. O negro escravo
e a cana-de-açúcar fundamentavam a colonização
aristocrática e a estrutura básica do
mundo dos coronéis se repetiria nos ciclos do ouro e do café,
em Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, com o mesmo fundamento:
a ocupação da terra.
Na sociedade escravocrata e latifundiária que
se formava, os valores culturais e sociais se misturavam à revelia
de brancos e negros. Sua convivência diária favorecia o
intercâmbio de culturas e gerava sadismos e vícios, que
influenciavam a formação do caráter do brasileiro.
A escravatura degradava senhores e escravos.
Na verdade, senhores,
se a moralidade e a justiça de qualquer povo se fundam, parte
nas sua instituições religiosas e políticas, e
parte na filosofia, por assim dizer doméstica de cada família,
que quadro pode apresentar o Brasil quando o consideramos debaixo desses
dois pontos de vista?"
Trecho de Casa-Grande & Senzala.
O
senhor de engenho, um homem extremamente rico e poderoso, passava a
maior parte do tempo deitado na rede, cochilando e copulando. Quando
saía, a passeio ou em viagem, o negro era seus pés e mãos.
O sinhô não precisava levantar-se da rede para dar ordens
aos negros, bastava gritar.
Os negros veteranos, os ladinos, iniciavam os recém-chegados
na moral e nos costumes dos brancos. Ensinavam a língua e orientavam
nos cultos religiosos sincretizados. Eram ainda os ladinos que ensinavam
aos boçais a técnica e a rotina na plantação
da cana e no fabrico do açúcar.
A escravidão desenraizava o negro de seu meio
social e desfazia seus laços familiares. Além dos trabalhos
forçados, ele era usado como reprodutor de escravos: era preciso
aumentar o rebanho humano do senhor de engenho. As crias nascidas eram
logo batizadas e ainda assim consideradas gente sem alma. A Igreja,
esteio dos poderosos, agia da mesma forma no tratamento dado ao negro.
A mulher escrava fazia a ponte entre a senzala e o interior da casa-grande
e representava o ventre gerador. As negras mais bonitas eram escolhidas
pelo sinhô para serem concubinas e domésticas. Objeto dos
desejos sádicos dos homens, do senhor de engenho ao menino adolescente,
a negra sofria por parte da mulher branca os castigos mais variados.
Se a beleza dos seus dentes incomodava a desdentada sinhá, esta
mandava arrancá-los. A escrava adoçava a boca do senhor
e recebia chicotadas à mando da senhora, mas cumpria as tarefas
que normalmente estariam destinadas à mãe de família.
As damas da sociedade se casavam entre os doze e os quinze anos com
homens muito mais velhos. O conhecimento que tinham da vida de casada,
os acontecimentos de fora do engenho e outras histórias - nem
sempre românticas - elas ouviam da boca das mucamas. As sinhazinhas
sentadas à mourisca, tecendo renda ou deitadas na rede e as escravas
a lhes catar piolho ou fazendo cafuné. Cedo se casavam e cedo
morriam por causa de sucessivos partos ou se tornavam matronas aos dezoito
anos. O ócio e a vida reclusa faziam das sinhás mulheres
amarguradas. E ignorantes: era raro encontrar uma que soubesse ler e
escrever. A presença da negra na vida do menino vinha desde o
berço, quando ela o amamentava e acalentava o seu sono. A ama
de leite ensinava as primeiras palavras num português errado,
o primeiro "pai nosso", o primeiro "oxente", e amaciava
com a própria boca a comida do menino de engenho. Os sofrimentos
da primeira infância - castigos por mijar na cama e purgante uma
vez por mês os meninos descontariam tornando-se pequenos diabos.
O moleque, o pequeno escravo, companheiro do sinhozinho em brincadeiras
e aventuras, servia também de saco de pancadas. Tornava-se objeto
do prazer mórbido de tratar mal os inferiores e os animais, prazer
de todo menino brasileiro filho do sistema escravocrata. Criança
mimada e educada para ser o herdeiro todo-poderoso, o menino desde o
início da adolescência era entregue aos cuidados eróticos
da fulô.
"Costuma dizer-se
que a civilização e a sifilização andam
juntas. O Brasil, entretanto, parece ter-se sifilizado antes de se haver
civilizado. A contaminação da sífilis em massa
ocorreria nas senzalas, mas não que o negro já viesse
contaminado. Foram os senhores das casas-grandes que contaminaram as
negras das senzalas. Por muito tempo dominou no Brasil a crença
de que para um sifilítico não há melhor depurativo
que uma negrinha virgem."
Trecho de Casa-Grande & Senzala.
Os senhores de engenho casavam-se sucessivas vezes,
sempre preferindo as jovens sobrinhas; exagerava-se, então, o
sentimento da propriedade privada. As heranças eram disputadas
por filhos legítimos e parentes próximos. Aos filhos bastardos,
gerados nas casa-grande e paridos na senzala, restava a tolerância
do senhor, que ao morrer os libertava. Nomes e sobrenomes se confundiam:
os escravos mais próximos, que ganhavam a simpatia do senhor,
conseguiam adotar o sobrenome dos brancos. Na tentativa de ascensão
social, os negros imitavam dos senhores as formas exteriores de superioridade.
Mas muitos nomes ilustres de senhores brancos vinham dos apelidos indígenas
e africanos das propriedades rurais - a terra recriava os nomes dos
proprietários à sua imagem e semelhança.
A
música, o canto e a dança dos escravos tornavam a casa-grande
mais alegre. A risada do negro quebrava a melancolia e o silêncio
infinito do senhor de engenho. As mães negras e as mucamas, aliadas
aos meninos, às moças das casas-grandes e aos moleques,
corrompiam o português arcaico ensinado pelos jesuítas
aos filhos do senhor. A nova fala brasileira não se conservava
fechada nas salas de aula das casas-grandes, nem se entregava de todo
à maior espontaneidade de expressão da senzala. Mas o
modo carinhoso do brasileiro colocar os pronomes: me diga, me espere...
vem do africano. Também do seu modo de falar ficaram as formas
diminutivas: benzinho, nézinho, inhozinho.
Era um novo jeito de falar, um novo jeito de andar,
um novo jeito de comer... A culinária da senzala aproveitava
as sobras de carnes da casa-grande, usava o aipim indígena e
as verduras, misturava aos temperos africanos, principalmente o dendê
e a pimenta malagueta. Surgiam a feijoada, a farofa, o quibebe, o vatapá.
Alimentos que combinavam com a dureza do trabalho no cativeiro. As crenças
e magias trazidas pelos portugueses eram transformadas em feitiçaria
nas mãos dos africanos. Aos negros feiticeiros recorriam os senhores
brancos idosos a procura de afrodisíacos; as jovens sinhás,
que não conseguiam engravidar; e as belas mucamas, que aprendiam
a receita do café mandingueiro, um filtro amoroso feito com café
bem forte, muito açúcar e sangue de mulata.
Na
religião conviviam a cultura do senhor e a do negro. O catolicismo
praticado aqui era uma religião doce, doméstica, de intimidade
com os santos. Os padres se vangloriavam de conceder aos negros certas
vantagens, como o direito de manifestar suas tradições
nas festas do terreiro. Nasciam então as religiões afro-brasileiras:
São Jorge é o orixá Ogum e Nossa Senhora é
Iemanjá.
"Esse terreiro tem 110 anos. A minha avó era descendente
de escravos. Tinha uma aldeia que se chamava Catongo. Nessa aldeia ela
também cultivava os orixás, quando chegavam assim os escravos
chicoteados de outros lugares, fazendas, engenhos, essas coisas. Aí
ela curava com aquelas difusões de ervas, né, aqueles
remédios das folhas, e curava esses escravos, que ficavam gratos
e acabavam ficando com ela. Quer dizer, ela era assim uma espécie
de protetora desses escravos. E a minha mãe falava que era uma
senzala, onde ela abrigava esses escravos."
Ilza R.P. Santos, mãe-de-santo (Ilhéus, BA)
(??)
"Não foi
só de alegria a vida dos negros escravos dos ioiôs e das
iaiás brancas. Houve os que se suicidaram comendo terra, enforcando-se,
envenenando-se com ervas e potagens dos mandingueiros. O banzo deu cabo
de muitos. O banzo - a saudade da África. Houve os que de tão
banzeiros ficaram lesos, idiotas. Não morreram, mas ficaram penando."
Trecho de Casa-Grande & Senzala.
Os negros, muitos agora, libertos pela alforria, pela
revolta ou pelas fugas, unidos nos quilombos, lutavam pelo fim da escravidão.
Aliavam-se aos ideais libertários os filhos de poderosos senhores
de engenho que se tornavam abolicionistas por motivos econômicos,
humanitários ou, simplesmente, pelo apego que tinham às
suas mães de leite.
"
Os brancos diziam que em nenhum país do mundo essa nefanda instituição
foi tão doce como no Brasil. Agora não me passa pela cabeça
- não deve passar pela cabeça de ninguém - que
essa nefanda instituição, como os próprios brancos
chamavam a escravidão, que ela pudesse ser doce em algum lugar.
Ela só pode ser doce da perspectiva de quem estivesse na casa-grande
e não na perspectiva de quem estivesse na senzala."
Florestan Fernandes, cientista social.
Em 1984, numa de suas últimas entrevistas, o escritor Gilberto
Freyre resumia o seu pensamento sobre a situação presente
do negro, lembrando o abolicionista pernambucano Joaquim Nabuco:
| "O
problema é que a abolição da escravatura, embora
tenha sido fato notável na história da formação
brasileira, foi muito incompleta." |
Com a abolição, os problemas do negro estariam apenas
começando. Mas quem se interessou por isso? Ninguém se
interessou. O negro livre deixou as fazendas e os engenhos e foi inchar
as periferias da s
cidades. Abandonado, constituiu-se num sub-brasileiro.
"Todo mundo... não quer se encontrar
com os pretos,
não quer, só quer se ligar aos brancos. Mas isso naquela
época a Princesa Isabel libertou! Cabou-se, né! esse negócio
de não querer se encontrar com o negro.
Porque tristes dos brancos se não fosse o sangue do negro
Maria Madalena Correia, cantora (Ilha de
Itamaracá, PE).
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