|
A prosotáfora
poética
num poema de Joca de Oliveira
por Alcioneide Ferreira da Silva Oliveira
O professor Luiz Antônio Marcushi nos diz que as metáforas
são "um modo específico de conhecer o mundo",
a possibilidade de "criação de novos universos
de conhecimento". O poeta quando escreve ele procura extrair
do infinito todo seu sentimento e busca integrar o homem e as
coisas num universo real ou imaginário. Assim, Joca de
Oliveira, como é conhecido no meio da poesia alternativa,
poeta contemporâneo, é amante das artes em toda
sua dimensão; cria em seu poema intitulado "Frustrante"
um sentimento de decepção com o mundo dos homens,
abordando a princípio, a figura de pensamento prosopopéia,
que " consiste em atribuir características de seres
animados a seres inanimados ou irracionais", onde temos
a possibilidade de fazer uma leitura bem ingênua , sem
um caráter mais crítico, porém nas variadas
leituras imediatamente o poema nos revela seu valor metafórico,
ora implícito, ora explícito nos devolvendo a
compreensão da relação homem x mundo. De
acordo com o professor Soares Amora, a metáfora é
o emprego de "uma palavra noutro sentido que não
o próprio",com base numa semelhança de idéias,
devendo ser considerada sempre uma imagem, pois toda ficção
é, em sentido amplo, uma imagem da realidade.
Inicialmente iremos perceber que a metáfora
apresenta-se no poema de maneira implícita e no decorrer
ela mostra-se clara, sem artifícios nos transportando
às novas idéias que os símbolos irão
nos sugerir.Segundo René Waltz, " La métaphore
consiste à transformar mentalement un objet ou un étre
en autre".
Propor-se uma análise da prosotáfora
poética como recurso, numa leitura de mundo do autor,
nos desafia a fazer com que a linguagem usada, consiga transmitir
aos leitores tudo o que foi criado pelo poeta, ultrapassando
os limites e as possibilidades da própria língua;
através da fusão entre a prosopopéia e
a metáfora.
F. Mauthner escreve "que a metáfora
é o princípio onipresente da língua, já
pode ser notada na simples observação diária".
Não é exclusiva da linguagem literária.
Manifesta-se também na linguagem cotidiana. Porém,
só é rica quando traz à frase um sentido
novo, uma originalidade, como diria Umberto Eco: toda uma realização
simbólica anuncia que a vida basta. A vida se auto justifica,
apesar da indiferença dos outros. A prova disso será
o belo poema "Frustrante" de João José
de Oliveira, nosso mais enigmático poeta pernambucano,
que tentaremos desmistificar fazendo uma leitura mais profunda.
Acordei, um dia,
com os passarinhos beijando os espantalhos,
e pensei, por um momento,
que o paraíso tivesse baixado entre
nós.
Caminhei num campo onde os lobos e os cordeiros
se abraçavam sob a brisa,
numa estranha revolução.
Continuei , apressado,
com os gritos das flores e dos espinhos
me pedindo para ficar.
Mas eu queria concretizar
o que me parecia uma ilusão,
uma maravilhosa ilusão.
Adentrei na cidade
e cruzei as calçadas.
Virei ruas e becos,
dobrei esquinas de pedras.
Tudo era pedra .
Havia pedras nas almas humanas.
Uma lágrima escorreu pelo meu rosto
- quase um gás -
a me cegar.
Ao cair da tarde,
eu deixei a cidade.
Voltei ao campo
e me deixei cair na relva macia,
desolado.
Acordei no outro dia:
Os passarinhos tinham estraçalhado os
espantalhos
e dizimado as plantações.
Os lobos se banqueteavam,
devorando os cordeiros.
E, das pontas dos espinhos, escorria o sangue
claro
das pétalas das rosas.
O mundo tinha voltado a ser o mesmo.
A poesia é algo indecifrável, brota de um sentimento
espontâneo que o poeta traz consigo. É um universo
mágico, inexplicável, e sua força reside
na capacidade de transformarmos o nosso mundo interior e nos
lançarmos em uma realidade intersubjetivamente comunicável.
A leitura nos revela aos poucos o seu caráter
prosotáforo (prosopopéia metafórica), que
permeará todo o poema, substituindo um símbolo
por outro o autor vai criando um campo de interpretações
que nos remeterá a variadas leituras, para podermos descobrir
a metáfora embutida na prosopopéia.
Na primeira estrofe, o segundo verso "com
os passarinhos beijando os espantalhos" é notável
a presença da prosopopéia, contudo a metáfora
existe implícita através dos símbolos usados,
os passarinhos que chamaremos aqui de (pessoas de bem com a
vida) e os espantalhos ( classe dominante ).
E à ação de se beijarem,
mostra-nos o desejo que o poeta tem de um mundo harmonioso,
renovado; possibilidade esta, alcançada através
da metáfora.
Ainda na primeira estrofe o quinto verso "Caminhei
no campo onde os lobos e os cordeiros."e o sexto verso
"se abraçavam sob a brisa". Presença
forte da prosopopéia atribuindo características
humanas, a seres irracionais, o poema vai nos levando a uma
segunda leitura, o que está nas entrelinhas; os símbolos,
representados pelos lobos e cordeiros, são as diferentes
classes sociais unidas num mesmo propósito, visão
do autor ao escrever este poema. Inicialmente nos confrontamos
com um mundo prazeroso, com igualdade e justiça sociais
fazendo parte deste universo mágico que a poesia pode
criar.
Marcushi diz que "apesar de metáfora
e magia terem muito em comum, não devem ser identificadas.
A magia é um modo de conhecer o mundo a fim de agir sobre
ele, influenciando-o, ao passo que a metáfora é
um modo novo de conhecer e comunicar o mundo assim conhecido.
Ela é, de certa forma, um recurso reestruturador da realidade,
criando novas áreas de experiências que fogem ao
indivíduo restrito à realidade puramente factual."
Joca de Oliveira nos comunica uma maneira diferente
de ver o mundo dos homens, já conhecido por nós,
um mundo em que as pessoas se unem em busca de ideais sólidos
e verdadeiros. No nono verso "com os gritos das flores
e dos espinhos" e o décimo verso "Me pedindo
para ficar." A prosopopéia é bastante marcante
e lógica, porém maravilhosamente o autor transporta
os símbolos flores e espinhos em vozes das variadas pessoas
alertando o poeta contra a violência urbana, surgindo
uma prosotáfora fantástica que perpassa os versos,
numa seqüência que parece se auto-produzir. Existe
no poema uma fusão de animais, pessoas e coisas com o
universo metafórico em que fazemos parte.
As expressões usadas pelo autor na primeira
estrofe trazem, propositalmente a prosopopéia como artifício,
instaurando a metáfora implícita, enriquecendo
seu poema, pois ele sabe que as expressões metafóricas
sugerem aspectos que as palavras com seu significado literal
não podem apresentar. Poderíamos nos indagar:
o que serviu de base para o poeta criar estas comparações,
unindo a prosopopéia e a metáfora? o enigma que
tais expressões prosotáforas causam e a confusão
que geram no leitor será tanto maior quanto mais rico
for o mundo que elas revelam e quanto mais intraduzível
for esse mundo.
O poeta funda-se na capacidade criadora intuitiva,
e não num pensamento analítico ou lógico,
neste poema ele nos mostra a fusão de duas figuras de
linguagem em que a metáfora está além do
visual, despertando em nós uma busca constante de significações,
para compreendermos a força existente que conduz todo
o contexto.
Neste artigo, mostramos a união da prosopopéia
e da metáfora, fazendo uma comparação entre
o mundo imaginário e o mundo real do autor e a esta inter-relação
é o que estamos chamando de prosotáfora; enfatizaremos
agora as metáforas no sentido amplo da palavra que estão
contidas no poema.
Na segunda estrofe, o sexto verso " Havia
pedras nas almas humanas", a metáfora apresenta-se
nítida, sem subterfúgios, em que o autor mostra
toda sua indignação diante da vida urbana a qual
está inserido, começando a ver o mundo sem máscaras
ou utopias, como se voltasse ao seu mundo real.
O sétimo verso "uma lágrima
escorreu pelo meu rosto – quase um gás" observa-se
a presença de uma metáfora de comparação
implícita, onde o poeta faz uma analogia da lágrima
a um gás.
Lágrima (comparado) ________________
gás (comparando)
Para Massaud Moisés, "a comparação
evidenciada pela partícula ‘ como ’ é
metafórica precisamente porque instaura um sentido novo
por meio da justaposição identificadora dos dois
membros da equação". O professor Luiz Antonio
Marcushi defende o contrário dizendo que " justamente
aquele ‘como’é um ladrão de metáfora;
ele tira a força da metáfora e cria um símile
com certa força expressiva, mas não é metáfora
no sentido estrito do termo".
Analisando ainda o sétimo verso "Uma
lágrima escorreu pelo meu rosto – quase um gás".
Podemos observar uma metáfora forte, pois para ser vista
como uma comparação faltariam os membros da equação
os quais se refere Massaud Moisés, ficando quase impossível
uma criação de uma paráfrase interpretativa,
que perderia todo seu valor poético, tornando-se comum.
O poeta criou um universo novo de comunicação,
não preocupado com normas ou regras de âmbito lingüístico
nem com a interpretação lógica, mas com
o efeito que a poesia pode causar no leitor e o poder da simbologia,
através das figuras de estilo. Seria perder tempo tentando
desvendar os motivos que levaram o poeta a fazer tais comparações,
o que serviu de base para sua inspiração. A metáfora
não se esgota, ela vai além dos limites humanos,
ultrapassa a capacidade idealizadora do homem. Segundo o psicólogo
russo Vygotski, diríamos que a metáfora é
anterior à razão e serve de meio para aferir a
capacidade criativa natural do homem. A união da prosopopéia
e da metáfora (prosotáfora) é para o leitor,
uma descoberta de algo até então ilógico,
que o leva ao ápice da sua imaginação,
vislumbrando a criatividade do poeta.
Não pretendemos neste artigo analisar
exaustivamente a metáfora, mas sim apresentá-la
de forma em que o leitor venha refletir, o universo em que o
autor busca, o verdadeiro mundo em que ele se encontra, a realidade
em que ele está inserido, nos levando através
da prosotáfora poética ir além do que está
escrito, nos encantando com um modo específico e irreverente
de conhecer a poesia. Na quarta estrofe os versos sexto, sétimo
e oitavo dizem:
E, das pontas dos espinhos, escorria o sangue
claro
das pétalas das rosas.
O mundo tinha voltado a ser o mesmo.
Se considerarmos a relação que
existe entre metáfora e o inconsciente de ver e encarar
o mundo, poderíamos dizer que estes versos nos revelam
o acesso ao inconsciente do poeta, dividido entre seu desejo
de fazer parte de um universo humanizador e o seu mundo real,
o poeta começa a perceber que tudo não passou
de um sonho e se frustra em ver que nada mudou. Isso nos lembra
a biografia do autor e sua integração no processo
literário, as dificuldades as quais passou de verdade
o poeta, rapaz interiorano meio perdido na metrópole,
introspectivo, triste, com tendências pessimistas, mas
com um conteúdo social fortíssimo, aguçado
pelas primeiras experiências vividas em cidade grande,
e pelo choque de sair de uma vida quase monástica do
internato para o turbilhão de sentimentos jogados diuturnamente
em sua vida pela paisagem recifense.
Este poema nos remete também a data
em que fora escrito, 1982, onde nesta época havia o crescimento
das atividades de apoio ao movimento ecológico, gritos
de alerta em favor da preservação da natureza,
contra o extermínio das espécies em extinção,
contra a violência urbana e contra os desmatamentos.
A prosotáfora poética nos leva,
aqui, à leitura do recado humanístico que o autor
nos apresenta, a fuga e/ou expulsão de toda sensibilidade
encontrada nas grandes e pequenas cidades, do humanismo que
nelas possa existir e que está prestes a se evadir, à
leitura da história de um poeta reservado, mostrando-nos
a decepção por se sentir impossibilitado de transformar
a sociedade hostil em que faz parte e se recolhe dentro de sua
própria vida, fazendo da linguagem poética o caminho
de acesso à leitura do mundo.
Frustrante é um poema que chora, grita
e jamais se conformará com a realidade nua e crua que
o mundo insiste em preservar. Já dizia Eça de
Queiroz: "Sob a nudez crua da realidade o manto diáfano
da fantasia."
Referências Bibliográficas
MARCUSHI, Luiz Antonio, 1984 . A propósito da metáfora.
In: Pórtico, v1, n.1, pp. 15 – 32.
FERREIRA, Luzilá Gonçalves, 1984. A metáfora
como leitura de mundo, num poema de Alphonsus de Guimaraens.
In: Pórtico, v1, n.1, pp. 7 – 9.
L. S. Vygotski - Denken und Sprechen. Nerdligen, S. Fischer
Verlag. 1974. Cf. especialmente os primeiros capítulos.
SOARES, Amora – Teoria da Literatura – pág.
192.
WALTZ, René – La Création Poétique
– pág. 120.
F. Mauthner, op. cit. , pp. 451 – 454 e tb. p. 465 ss.
MESQUITA, Roberto Melo – Gramática da Língua
Portuguesa – pág. 543
|