3. As marcas lingüísticas
que indicam o posicionamento dos alunos
Entre as marcas lingüísticas empregadas nas redações
analisadas identificamos palavras que se constituem em índices
avaliativos, experiências pessoais, verbos em primeira pessoa
do singular, verbos em primeira pessoa do plural e recursos de modalidade.
Os índices avaliativos permitiram aos candidatos usarem suas
impressões para avaliarem o problema apresentado no tema, conforme
podemos ver nos fragmentos que seguem:
1. (Redação 6, §1) A cada ano, milhares de jovens
se entregam de corpo e alma à disputa acirrada e tensa que
é o vestibular da UFRGS.
2. (Redação 1, §1e 2) Porém, para tal precisará,
antes, ser bem sucedido no vestibular: a maratona de cerca de trezentos
testes que selecionam os futuros acadêmicos da UFRGS. O fato
de você estar em uma sala com mais vinte estudantes, todos seus
concorrentes diretos é realmente estressante.
3. (Redação 3, §1 e 5) Hoje, estamos enfrentando
mais uma batalha em nossa vida. Talvez não seja uma simples
batalha, mas sim uma guerra.
Estão sendo feitas milhares de redações, que
além de julgar se cada autor tem ou não condições
de entrar na faculdade demonstra que a UFRGS está a fim de
por (sic) um fim ao monstro do vestibular.
4. (Redação 9, §1) Tensão, nervosismo,
colapsos nervosos... é assim que a maioria dos jovens encara
o vestibular: um verdadeiro martírio. E todos os anos, nesta
época, milhares de pais e amigos se vêem envolvidos na
agonia pela qual passa o vestibulando.
Conforme podemos ver pelos fragmentos, palavras como “disputa
acirrada e tensa”, “maratona”, “batalha”,“guerra”,
“monstro”, “agonia” foram utilizadas pelos
alunos para avaliar o concurso vestibular. Essas palavras são
índices avaliativos Vande Kopple (1985), que demonstram o envolvimento
dos candidatos com o tema proposto na prova. No caso das redações
de vestibulandos, essas palavras permitiram aos alunos fazer avaliações
do conteúdo proposicional do texto em termos de conceitos “bom“
e “ruim”, ou “positivo” e “negativo”.
Eles demonstraram, assim, sua opinião sobre o problema discutido,
emitindo o seu juízo de valor em relação ao assunto.
A autoria, aqui, está relacionada à presentificação
do autor no texto e ao seu comprometimento com o tema que aborda.
Outra maneira de alunos vestibulandos marcarem sua presença
é o uso de experiências pessoais, conforme podemos ver
nos fragmentos abaixo:
1. Eu já vivenciei tal experiência e sei que não
é fácil realizar uma prova de vestibular.
2. (Redação 5, §2) Eu, por exemplo, sempre fui
muito dedicada aos estudos, passando horas, no meu quarto, ou na biblioteca
da escola estudando. Sempre consciente de que um bom preparo na escola
seria o caminho que contribuiria, em grande parte, para o ingresso
na universidade, desde cedo me preocupei com o vestibular. Mesmo assim,
confesso não ter conseguido dormir nas noites que antecederam
o concurso e, apesar de ter estudado em um ótimo colégio
e obtido boas notas, senti-me insegura diante do concorrido vestibular
para Direito.
Como podemos perceber, as experiências pessoais dos alunos foram
utilizadas para justificar seus posicionamentos e, com isso, argumentarem
sobre a validade de suas opiniões. Assim, os alunos que prestaram
o concurso vestibular na UFRGS, em 1997, puderam propor reformulações
no concurso vestibular levando em conta as suas experiências
como alunos vestibulandos.
Da mesma maneira, verbos nas primeiras pessoas do singular e
do plural indicam a maneira como o autor presentifica-se no texto
e a relação que ele estabelece com seu leitor, conforme
podemos perceber nos fragmentos abaixo:
1. (Redação 2, §4) Acredito que, enquanto o vestibular
exigir conhecimentos previsíveis, com questões profetizadas
pelos cursinhos, continuaremos com alunos cujo conceito de aprovação
no vestibular significa a alegria de nunca mais precisarem enxergarem
(sic) logarítimos.
2. (Redação 3, §3) Não podemos culpar
a UFRGS pelo caos do nosso sistema educacional. Não temos condições
de fazer como os E.U.A. ou outros países desenvolvidos onde
o aluno que apresentar o melhor currículo escolar tem vaga
garantida nas melhores universidades do mundo.
Consideramos também que o emprego de verbos em primeira pessoa
do plural denota a tentativa de o autor compartilhar com o leitor
a responsabilidade do problema apresentado no texto. Segundo Clark
& Ivanic (1997), escritores dos mais diferentes gêneros
freqüentemente empregam o "nós" para simular
que ambos (escritor e leitor) têm o mesmo posicionamento. Segundo
as autoras, essa é uma maneira de escritores conquistarem seus
leitores para que participem de seu posicionamento. Para elas, se
escritores estão escrevendo para persuadir um grupo de leitores
resistentes sobre suas visões, eles necessitam tratar o diálogo
com seus leitores diferentemente de uma audiência que aceite
suas idéias.
1. (Redação 1, §4) Enfim, acho que o vestibular
não pode ser extinguido, já que a procura por vagas
é bem maior que a oferta. Porém, mudanças devem
ser feitas a fim de que se avalie o grau de aprendizagem do estudante
durante toda sua vida escolar e não apenas o que ele aprendeu
no “cursinho”. Só assim garantiremos universitários
e profissionais competentes.
2. (Redação 3, §5) É plenamente possível
reformular o Vestibular, basta que todos nós pensamos (sic)
juntos desde o reitor até o aluno, até chegar a uma
conclusão.
3. (Redação 2, §4) Acredito que, enquanto o vestibular
exigir conhecimentos previsíveis, com questões profetizadas
pelos cursinhos, continuaremos com alunos cujo conceito de aprovação
no vestibular significa a alegria de nunca mais precisarem enxergarem
(sic) logarítimos.
Podemos dizer ainda que os alunos que prestaram o concurso vestibular
na UFRGS demonstraram levar em conta quem são os leitores dos
textos. Alguns trechos das redações que transmitem críticas
ao sistema educacional e que, ao mesmo tempo, modalizam a linguagem
no sentido de não impor a responsabilidade à UFRGS,
comprovaram que o uso da linguagem está relacionado ao objetivo
comunicativo e à relação com a audiência-alvo.
Outra maneira de alunos relacionarem-se com seus leitores é
o uso de recursos de modalidade. Os alunos que prestaram concurso
na UFRGS em 1997, por exemplo, engajaram-se no assunto tratado, assumindo
com maior ou menor certeza as suas afirmações. Ao usarem
as palavras “dever”, “precisar”, “necessitar”,
“permitir” nas redações, ou ainda verbos
modais ou advérbios que estabelecem a mesma relação
de obrigatoriedade, de necessidade, de permissão como “realmente”,
“necessariamente”, “obrigatoriamente”, recorreram
à modalidade deôntica para demonstrar até que
ponto acreditam que as proposições que defendem são
verdadeiras. Segundo Halliday (1994), a modalidade deôntica
apresenta-se numa escala que varia entre o que é obrigatório,
proibido, permitido ou facultativo fazer. Essa modalidade é
exemplificada nos fragmentos abaixo.
1. (Redação 1, §2) Os candidatos deveriam ser distribuídos
em ordem alfabética nas escolas, desconsiderando-se o curso
a que concorrem, o que amenizaria um pouco a competição.
2. (Redação 3, §1) Essa guerra injusta precisa
ser modificada para não trazer mais tantas decepções
a quem não consegue vencê-la.
3. (Redação 4, §2) Possíveis mudanças
no concurso vestibular devem, em primeiro lugar, respeitar a comunidade
em que o mesmo insere-se.
4. (Redação 6, §) E, para que tal sonho se concretize,
é necessário que antes se passe por uma verdadeira guerra
chamada vestibular.
5.(Redação 8, §3) As matérias avaliadas
deveriam ser escolhidas de acordo com o curso e as questões
ser(sic) somente dissertativas.
6. (Redação 9, §4) A reformulação
do vestibular deve ser discutida por todos os setores da sociedade,
pois todos se vêem, diariamente, indiretamente envolvidos com
profissionais medíocres e incompetentes, frutos prováveis
de um sistema incompletde seleção para a universidade.
Como podemos perceber, com o uso desses recursos de modalização,
escritores vão através de comandos, ofertas e sugestões
estabelecendo relações com o interlocutor, no sentido
de assegurar que ele compartilhe da necessidade das sugestões
propostas.
Outros alunos, no entanto, preferiram manifestar sua opinião
utilizando a modalidade epistêmica, evitando, assim, impor explicitamente
sua opinião. Estudos têm demonstrado que palavras como
“certamente”, “provavelmente” e “possivelmente”,
empregadas nos textos, expressaram a variação entre
a probabilidade e a usualidade, através de graus intermediários
de possibilidade das asserções serem verdadeiras
(conforme Rebelo, 1999). Nas redações analisadas, o
grau da usualidade é dado por expressões como “freqüentemente”,
“usualmente” e “algumas vezes” (Halliday,
1994).
4. Considerações finais
A intenção deste trabalho foi tecer algumas considerações
sobre as marcas lingüísticas que evidenciam a presença
de alunos vestibulandos nas redações no sentido de proporcionar
uma reflexão sobre o tema. Se a análise dos trechos
das redações produzidas pelos alunos que realizaram
o concurso na UFRGS, em 1997, revelou que alunos que têm seus
textos considerados satisfatórios utilizam experiências
pessoais, índices avaliativos, verbos em primeira pessoa do
singular e do plural, é importante que os incentivemos a inserirem-se
nos temas discutidos, analisando-os a partir de suas expectativas,
de sua visão pessoal, sem a necessidade de manterem o “distanciamento”
tão comum em textos de vestibulandos. Quem sabe assim, eles
possam legitimar seus posicionamentos sem empregar “fórmulas
prontas” e desgastadas que, muitas vezes, apenas os atrapalham
na produção do texto.
Se à escola cabe oferecer condições para que
os alunos ocupem o seu lugar social, é pertinente que levemos
em conta a sua história de vida, seus desejos e aspirações
ao trabalharmos a redação. Dessa maneira, quem sabe,
eles poderão mais facilmente produzirem textos mais satisfatórios
e adequados à tarefa proposta.
BIBLIOGRAFIA
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mudança possível.
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Universidade
Federal de Santa Maria. 1998.
CLARK, R.; Ivanic, R. The politics of writing. London:Routledge.1997.
HALLIDAY, M. A. K. An introduction to funcional grammar. London: Edward
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REBELO, N. Análise do processo persuasivo no gênero editorial.
Santa Maria: UFSM. 1999. Dissertação (Mestrado em Letras)-Universidade
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UNIVERSIDADE FEDERAL do RIO GRANDE do SUL, Prova do Concurso Vestibular,
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VANDE KOPPLE, W. J. Some exploratory discourse on metadiscourse.
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