Pleonasmo:
"vício" ou estilo ?
Não
é raro ouvirmos que alguém "subiu lá
em cima" ou "saiu lá fora". Certamente,
reconhecemos tais formas como viciosas, e, muitas vezes, elas
se transformam em motivo de riso. No nível culto da língua,
são inadmissíveis. Que pensar de alguém
que tenha sofrido uma "hemorragia de sangue" ou participado
de um "plebiscito popular"? A esse tipo de construção
chamamos pleonasmo, palavra grega que significa superabundância.
Quantas
vezes já ouvimos alguém dizer que houve um "consenso
geral"? Ora, consenso é a opinião geral.
É o mesmo problema que ocorre com a "opinião
individual de cada um" e com a "unanimidade de todos".
"Encarar cara a cara", "repetir de novo",
"enfrentar de frente" são tão redundantes
quanto o "erário público" e o "vereador
municipal".
Se
esses pleonasmos beiram o ridículo, outros há
no idioma perfeitamente aceitáveis. São comuns,
em bons escritores, construções com duplo objeto,
de grande poder expressivo. Em uma frase como: "A carta,
não a recebi", o objeto direto é anteposto
(a carta) e repetido depois como pronome oblíquo ("a").
A este chamamos objeto direto pleonástico. A frase ficou
muito mais enfática que: "Não recebi a carta".
Quem
já não ouviu falar que alguém "viveu
uma vida de cão" ou "dormiu o sono dos justos"?
Nessas frases, ocorre o que se conhece, gramaticalmente, como
objeto direto interno. Um verbo intransitivo adquire transitividade
e tem o seu objeto direto representado por um núcleo
semanticamente ligado a ele, acrescido de um qualificativo.
O uso do adjetivo ou da locução adjetiva torna
único aquilo que pareceria óbvio.
Há
outras construções pleonásticas também
aceitas, como é o caso da dupla negativa, em frases do
tipo: "Não disse nada" ou "Não
havia nenhuma pessoa lá". Mais elegantes, entretanto,
soam as formas: "Nada disse" ou "Não havia
pessoa alguma lá". Note que o pronome indefinido
"algum", posposto ao substantivo, assume valor negativo.
Como
você pode perceber, nem sempre o pleonasmo é um
vício de linguagem. Vezes há em que é um
poderoso recurso de estilo. No belo "Soneto da Fidelidade",
diz Vinicius de Morais: "De tudo, ao meu amor serei atento/
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto/ (...) E em seu louvor
hei de espalhar meu canto/ E rir meu riso e derramar meu pranto
(...)".
Em
Manuel Bandeira, no "Poema Só para Jaime Ovalle",
lemos: "Chovia uma triste chuva de resignação".
O limite entre o "defeito" e o estilo pode parecer
tênue. Mas, com um pouco de sensibilidade, fica fácil
distinguir um do outro.
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