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Farsa
de Inês Pereira - Gil Vicente
A temática da
peça está profundamente ligada à realidade vivida pela sociedade
portuguesa da época de Gil Vicente: o desejo de ascensão social
da pequena burguesia, que vê no casamento numa forma de consegui-la,
o oportunismo, o desprezo pela vida camponesa e o prestígio
das maneiras cortesãs, a ignorância do rústico, embora rico
camponês e sua ingenuidade, a falta de escrúpulos (núcleo da
peça). O desenvolvimento do capitalismo reforçou o poder do
monarca e provocou a decadência da nobreza feudal. A riqueza
vinda do comércio ultramarino tendia a ser grande base do prestígio
social. A aristocracia dependia dessa riqueza e procurou diminuir
sua importância desprezando-a e valorizando a origem de sangue,
a educação, a fineza, as boas maneiras, a honra e a coragem,
enfim os ideais cavalheirescos. E como a nobreza mesmo decadente,
ainda conservava grande prestígio social, acabou por impor o
estereótipo do cavaleiro como modelo a que deviam aspirar todos
aqueles que queriam pertencer à classe superior. A burguesia
(comércio e finanças) procurou imitar esse figurino com desejo
de ascensão social. Passaram então a imitar os nobres sonhando
subir na escala social, mas isso tornou-se cômico e ridículo.
É mais ou menos o que acontece em Inês Pereira. Inês, jovem
cansada de trabalhar, quer casar. Lianor Vaz lhe arranja um
noivo, Pêro Marques, que ela recusa por ser falastrão (quer
um marido discreto, mesmo que pobre). Então Latão e Vidal, dois
judeus casamenteiros, lhe arranjam o escudeiro Brás da Mata,
com quem se casa. Brás é caloteiro e nunca paga seu moço, Fernando.
Logo após o casamento Brás vai para o Norte da África tornar-se
cavaleiro, mas é morto por um pastor mouro ao fugir da batalha.
Livre deste casamento Inês se casa com Pêro Marques.
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