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Sagarana
- João Guimarães Rosa
O livro principia
por uma epígrafe, extraída de uma quadra de desafio, que sintetiza
os elementos centrais da obra : Minas Gerais, sertão , bois
vaqueiros e jagunços , o bem e o mal: "Lá em cima daquela
serra, passa boi , passa boiada, passa gente ruim e boa passa
a minha namorada". Sagarana , compõe-se de nove contos,
com os seguintes títulos: - "O BURRINHO PEDRÊS" "
A VOLTA DO MARIDO PRÓDIGO" "SARAPALHA" "DUELO"
"MINHA GENTE" "SÃO MARCOS" "CORPO FECHADO
"CONVERSA DE BOIS" "A HORA E A VEZ DE AUGUSTO
MATRAGA" Em sua primeira versão , os contos de Sagarana
foram escritos em 1937, e submetidos a um concurso literário
(o prêmio ) "Graça Aranha", instituído pela Editora
José Olympio, onde não obtiveram premiação, apesar de Graciliano
Ramos, membro do júri, Ter advogado para o livro de Rosa (sob
o pseudônimo de Viator) o primeiro lugar (ficou em segundo).
Com o tempo, Guimarães Rosa foi depurando ("enxugando")
o livro , até a versão que veio à luz em 1946, reduzindo-a das
quinhentas páginas originais, para cerca de trezentas na versão
definitiva. O título do livro, Sagarana, remete-nos a um dos
processos de invenção de palavras mais característicos de Rosa-
o hibridismo. Saga é radical de origem germânica e significa
"canto heróico", "lenda" ; rana vem da língua
indígena e quer dizer "à maneira de " ou "espécie
de " As estórias desembocam sempre numa alegoria e o desenrolar
dos fatos prende-se a um sentido ou "moral", à maneira
das fábulas. As epígrafes que encabeçam cada conto condensam
sugestivamente a narrativa e são tomadas da tradição mineira
, dos provérbios e cantigas do sertão. O BURRINHO PEDRÊS Sete
de Ouro, um burrinho já idoso é escolhido para servir de montaria
num transporte de gado. Um dos vaqueiros, Silvino , está com
ódio de Badu , que anda namorando a moça de quem Silvino gostava
. Corre a boato entre os vaqueiros, de que Silvino pretende
vingar-se do rival. De fato Silvino atiça um touro e o faz investir
contra Badu que , porém, consegue dominá-lo. Os vaqueiros continuam
murmurando que Silvino vai matar Badu. A caminho de volta, este
, bêbado , é o último a sair do bar e tem que montar no burro.
Anoitece e Silvino revela a seu irmão o plano de morte. Contudo,
na travessia do Córrego da Fome, que pela cheia transformara-se
em rio perigoso , vaqueiros e cavalos se afogam . Salvam-se
apenas Badu e Francolim , um montado e outro pendurado no rabo
do burrinho. "Sete de Ouros", burro velho e desacreditado
, personifica a cautela, a prudência e a muito mineira noção
de que nada vale lutar contra a correnteza. CORPO FECHADO O
narrador , médico num vilarejo do interior , é convidado por
Mané Fulô, para ser padrinho de casamento. Mané detesta qualquer
tipo de trabalho e passa o tempo a contar histórias para o doutor:
de valentões; de ciganos que ele, Mané, teria ludibriado na
venda de cavalos; de sua rivalidade com Antonico das Pedras,
o feiticeiro. Mané possui um cavalo, Beija- Fulô, e Antonico
é dono de uma bela sela mexicana; cada um dos dois gostaria
muito de adquirir a peça complementar.- Aparece Targino o valentão
do lugar, e anuncia cinicamente que vai passar a noite antes
do casamento com a noiva de Mané. Este fica desesperado, ninguem
pode ajudá-lo, pois Targino domina o lugarejo. Aparece então
Antonico e propõe um trato a Mané : vai "fechar-lhe o corpo,
mas exige em pagamento o cavalo. Mané só pôde consentir. Em
seguida, enfrenta Targino e o mata. O casamento realiza-se sem
problema e Mané Fulô assume o posto de valentão, por Ter matado
Targino apenas com uma faquinha. E- Minha Gente PERSONAGENS:
Doutor: O narrador é o protagonista. Só sabemos que é um "Doutor"
por intermédio da fala de José Malvino, logo no início da narrativa:
"( Se o senhor doutor está achando qlguma boniteza..."),
fora isso, nem mesmo seu nome é mencioando. Santana: Inspetor
escolar intinerante. Bonachão e culto. Tem memória prodigiosa.
É um tipo de servidor público facilmente encontrável. José Malvino:
Roceiro que acompanha o protagonista na viagem para a fazendo
do Tio Emílio. Conhece os caminhos e sabe interpretar os sinais
que neles encontra. Atencioso, desconfiado, prestitavo e supersticioso.
Tio Emílio: Fazendeiro e chefe político, para ele é uma forma
de afirmação pessoal. É a satisfação de vencer o jogo para tripudiar
sobre o adversário. Maria Irma: Prima do protagonista e primeiro
objeto de seu amor. É inteligente, determinada, sibilina. Elabora
um plano de ação e não se afasta dele até atingir seus objetivos.
Não abre seu coração para ninguém, mas sabe e faz o que quer.
Bento Porfírio: Empregado da fazendo de Tio Emílio. É companheiro
de pescaria do protagonista e termina assassinado pelo marido
da mulher com quem mantinha um romance. O CONTO: O protagonista-narrador
vai passar uma temporada na fazenda de seu tio Emílio, no interior
de Minas Gerais. Na viagem é acompanhada por Santana, inspetor
escolar, e José Malvino. na fazenda, seu tio está envolvido
em uma campanha política. O narrador testemunha o assassinato
de Bento Porfírio, mas o crime não interfere no andamento da
rotina da fazenda. O narrador tenta conquistar o amor da prima
Maria Irma e acaba sendo manipulado pro ela e termina casando-se
com Armanda, que era noiva de Ramiro Gouvea. Maria Irma casa-se
com Ramiro. Histórias entrecuzam-se na narativa: a do vaqueiro
que buscava uma rês descagarrada e que provocara os marinbondos
contra dois ajudantes; o moleque Nicanor que pegava cavalos
usando apenas artimanhas; Bento Porfírio assassinado por Alexandre
Cabaça; o plano de Maria Irma para casar-se com Ramiro. Mesmo
contendo os elementos usuais dos outros contos analisados até
aqui, este conto difere no foco narrativo ena linguagem utilizada
nos demais. O autor utiliza uma linguagem mais formal, sem grandes
concessões aos coloquialismos e onomatopéias sertanejas. Alguns
neologismos aparecem: suaviloqüência, filiforme, sossegovitch,
sapatogorof - mas longe da melopéia vaqueira tão gosto do autor.
A novidade do foco narrativo em primeira pessoa faz desaperecer
o narrador onisciente classíco, entretanto quando a ação é centrada
em personagens secundárias - Nicanor, por exemplo - a oniscência
fica transparente. É um conto que fala mais do apego à vida,
fauna, flora e costumes de Minas Gerais que de uma história
plana com princípios, meio e fim. Os "causos" que
se entrelaçam para compor a trama narrativa são meros pretextos
para dar corpo a um sentimento de integração e encantamento
com a terra natal. D - Conversa de bois Sagarana O conto Conversa
de Bois está inserido entre aqueles que compõem o primeiro livro
do autor: é o penúltimo entre os nove contos que se encontram
em SAGARANA, livro publicado em 1946. A marca roseana de contador
de "causos" aparece logo no primeiro parágrafo: "Que
já houve um tempo em que eles conversavam, entre si e com os
homens, é certo e discutível, pois que bem comprovado nos livros
das fadas carochas ( ..) " O narrador abre a história contando
um fato: houve um tempo em que os bichos conversavam entre eles
e com os homens e põe em dúvida se ainda podem fazê-lo e serem
entendidos por todos : "por você, por mim, por todo mundo,
por qualquer filho de Deus?!" Manuel Timborna diz que sim,
e indagado pelo narrador se os bois também falam, afirma que
"Boi fala o tempo todo", dispondo-se a contar um caso
acontecido de que ele próprio sabe notícia. O narrador dispõe-se
a escutá-lo, mas " só se eu tiver licença de recontar diferente,
enfeitado e acrescentando pouco a pouco." Timborna concorda
e inicia sua narração. O narrador nos dirá que o fato começou
na encruzilhada de Ibiúva, logo após a cava do Mata-Quatro,
em plena manhã, por volta das dez horas, quando a irara Risoleta
fez rodopiar o vento. A cantiga de um carro de bois começou
a chegar, deixando ouvir-se de longe. Tiãozinho, o menino guia,
aparece na estrada: "(...) um pedaço de gente, com a comprida
vara no ombro, com o chapéu de palha furado, as calças arregaçadas,
a camisa grossa de riscado, aberta no peito( ...) Vinha triste,
mas batia ligeiro as alpercatinhas, porque, a dois palmos da
sua cabeça, avançavam os belfos babosos dos bois de guia - Buscapé,
bi-amarelo (...) Namorado, caracú sapiranga, castanho-vinagre
tocado a vermelho.(...) Capitão, salmilhado, mais em branco
que amarelo, (...) Brabagato, mirim malhado de branco e de preto.
( ...) Dansador, todo branco (...) Brilhante, de pelagem braúna,
( ...) Realejo, laranjo-botineiro, de polainas de lã branca
e Canindé, bochechudo, de chifres semilunares(...)." O
carreiro Agenor Soronho, "Homenzarrão ruivo, (...) muito
mal encarado" é apresentado aos leitores. Lá vai o carro
de bois, carregado de rapaduras, dirigido por Soronho que tinha
um orgulho danado de nunca ter virado um carro, desviado uma
rota. Quem ia triste era Tiãozinho, fungando o tempo inteiro,
semi-adormecido pela vigília do dia anterior, deixava um fio
escorrendo das narinas. Ia cabisbaixo e infeliz: o pai morrera
na véspera e estava sendo levado de qualquer jeito: "Em
cima das rapaduras, o defunto. Com os balanços, ele havia rolado
para fora do esquife, e estava espichado, horrendo. O lenço
de amparar o queixo, atado no alto da cabeça, não tinha valido
nada : da boca, dessorava um mingau pardo, que ia babujando
e empestando tudo. E um ror de moscas, encantadas com o carregamento
duplamente precioso, tinham vindo também." Os bois conversam,
tecem considerações sobre os homens: "- O homem é um bicho
esmochado, que não devia haver." Para os bois, Agenor é
um bicho : "homem -do-pau-comprido-com-o-marimbondo-na-
ponta". Comentam dele as covardias e despropósitos, sabem
que não é tão forte quanto um boi. O carreiro Soronho pára para
conversar com uns cavaleiros, entre eles uma moça, que ficam
sabendo sobre a morte do pai do menino. Tiãozinho, que já começara
a espantar a tristeza, recebe-a toda de volta. Despedem-se e
Agenor usa de novo o aguilhão contra os animais. Os bois recomeçam
a conversa : "Mas é melhor não pensar como o homem..."
Reconhecem que Agenor Soronho é mau; o carreiro grita com eles.
Começam a distinguir como trata o menino ( "Falta de justiça,
ruindade só."). Encontram João Bala que teve o carro acidentado
no Morro do Sabão; a falta de fraternidade de Soronho não permite
que o outro carreiro seja ajudado. Tiãozinho, debaixo do sol
escaldante, agora se recorda do pai: há anos vinha cego e entrevado,
por cima do jirau: "Às vezes ele chorava , de noite, quando
pensava que ninguém não estava escutando. Mas Tiãozinho, que
dormia ali no chão, no mesmo cômodo da cafua, ouvia, e ficava
querendo pegar no sono, depressa, para não escutar mais... Muitas
vezes chegava a tapar os ouvidos, com as mãos. Mal-feito! Devia
de ter, nessas horas, puxado conversa com o pai, para consolar...
Mas aquilo era penoso... Fazia medo, tristeza e vergonha, uma
vergonha que ele não sabia nem por que, mas que dava vontade
na gente de querer pensar em outras coisas... E que impunha,
até, ter raiva da mãe... ( ...) Ah, da mãe não gostava! Era
nova e bonita, mas antes não fosse... Mãe da gente devia de
ser velha, rezando e sendo séria, de outro jeito... Que não
tivesse mexida com outro homem nenhum... Como é que ele ia poder
gostar direito da mãe? ... " O leitor compreenderá , então,
na continuidade do Discurso Indireto Livre que a mãe de Tiãozinho
era amante de Agenor Soronho: "Só não embocava era no quartinho
escuro, onde o pai ficava gemendo; mas não gemia enquanto o
Soronho estava lá, sempre perto da mãe, cochichando os dois,
fazendo dengos... Que ódio!..." Os bois se apiadem daquele
"bezerro- de- homem" tão judiado e sofredor. Órfão,
sozinho, a recordação da mãe não traz conforto. O carreiro,
que já fora patrão do pai e seria o patrão do menino, exige-lhe
muito mais que suas forças podiam oferecer: "- Entra p¹ra
o lado de lá, que aí está embrejando fundo... Mais, dianho!...
Mas não precisa de correr, que não é sangria desatada!... Tu
não vai tirar o pai da forca, vai?... Teu pai já está morto,
tu não pode pôr vida nele outra vez!... Deus que me perdoe de
falar isso, pelo mal de meus pecados, mas também a gente cansa
de ter paciência com um guia assim, que não aprende a trabalhar...
Oi, seu mocinho, tu agora mesmo cai de nariz na lama! ... -
E Soronho ri, com estrépito e satisfação." Os bois observam,
conversam, tramam. Resolvem matar Soronho, livrando, portanto,
o menino de toda a injustiça futura": "- E o bezerro-
de- homem- que- caminha- sempre- na- frente- dos- bois? - O
bezerro- de- homem- que- caminha- sempre- adiante vai caminhando
devagar... Ele está babando água dos olhos..." Percebendo
que Soronho está dormindo, que descansa o aguilhão ao seu lado,
combinam derrubá-lo do carro, num solavanco repentino. Matam
o carreiro, livram o menino. Quase degolado pela roda esquerda,
lá está o carreiro: menos força que os bois, menos inteligência
que eles. Tiãozinho está livre, Agenor quase degolado jaz no
chão 9 - A HORA E A VEZ DE AUGUSTO MATRAGA Nhô Augusto é o maior
valentão de todo o lugar, gosta de briga e de deboche, tira
as namoradas e mulheres de outros, não se preocupa nem com sua
mulher nem com sua filha e deixa sua fazenda arruinar-se, Um
dia sobrevém o castigo : A mulher o abandona, seus capangas,
mal pagos, põem-se a serviço de seu maior inimigo. Nhõ Augusto
quer vingar-se mas não morre. Todo ferido, é encontrado por
um casal de pretos que o tratam; aos poucos se restabelece.
Matraga começa, então uma vida penitência, com os velhinhos
vai longe até um lugarejo bem afastado e lá trabalha duramente
de manhã a noite, é manso servidor para todo mundo, reza e se
arrepende de sua vida anterior. Um dia , passa o bando do destemido
jagunço Joãozinho Bem- Bem, que é hospedado por Matraga com
grande dedicação. Quando o chefe dos jagunços lhe faz a proposta
de integrar-se à tropa e reber ajuda deles, Matraga vence a
tentação e recusa. Quer ir para o céu, "nem que seja a
porrete" , e sonha com um "Deus valentão" . Um
dia, já recuperada a sua força, despede-se dos velhinhos. Chega
a um lugarejo onde reencontra o bando de Joãozinho Bem- Bem,
prestes a executar uma cruel vingança contra a família de um
assassino que fugira. Augusto Matraga opõe-se ao chefe dos jagunços.
No duelo ambos se matam. Nessa hora , Nhõ Augusto é identificado
por seus antigos conhecidos. O fragmento que vai se vai ler
é a apresentação de Nhõ Augusto. Observe que o personagem tem
três nomes: Matraga, Augusto Esteves e Nhõ Augusto. São três
os lugares , em que trascorrem as fases de sua vida- Murici,
onde vive inicialmente como bandoleiro; O Tombador, onde faz
penitência e se arrepende da vida de perversidade ; e o Rala
Coco , onde encontra sua hora e vez, duelando com Joãozinho
Bem- Bem. Pela estrutura narrativa, pela riqueza de sua simbologia
e pelo tratamento exemplar concedido à luta entre o bem e o
mal e às angústias, que essa luta provoca em cada homem durante
toda a vida , este conto é considerado o mais importante de
Sagarana. "Eu sou pobre ,pobre ,pobre, vou-me embora, vou-
me embora.. Eu sou rica, rica, rica vou-me embora, daqui..."
(Cantiga Antiga) "Sapo não pula por boniteza, mas porém,
por precisão/" (Provérbio Capiau) Matraga não é Matraga,
não é nada. Matraga é Esteves. Augusto Estees, filho do Coronel
Afonsão Esteves das Pindaíbas e do Saco- da Embira . Ou Nhô
Augusto- O homem- nessa noitinha de novena, nim lilão de atrás
de igreja, no arraial da Virgem Nossa Senhora das Dores do Córrego
do Murici.
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